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Youtuber coloca mágicos sob suspeita gravíssima e entidades seguem em silêncio

Uma nova polêmica envolvendo o youtuber Rodrigo Bonsaver, do canal Spooky Houses, ultrapassou todos os limites conhecidos das brigas de internet e atingiu em cheio a classe mágica brasileira. O vídeo, publicado como resposta ao Nicolas Neuromágico, que havia feito um react envolvendo a página de Bonsaver no Reclame Aqui, começa como uma disputa pessoal, mas termina em um ataque de proporções muito maiores. A partir do trecho final, especialmente depois de 1h05, o alvo deixa de ser apenas um desafeto. Passa a ser uma categoria inteira.

Durante o vídeo, Bonsaver se refere diretamente a Nicolas, mas também faz mensão a outro youtuber, que de acordo com nossa apuração, seria o criador de conteúdo e ilusionista Felipe Barbieri. Rodrigo insinua que Nicolas e Barbieri seriam homossexuais. Até aí, por mais constrangedor que seja, o episódio poderia ser lido como mais uma troca de farpas entre criadores de conteúdo. O problema é que, nos minutos finais, o discurso escala. 

No trecho final do vídeo,  Bonsaver começa a listar supostos crimes e golpes envolvendo mágicos, citando um caso de falso roubo de carro para recebimento de seguro, depois enumera o que chama de “crimes dos mágicos”, como “golpe da caixa mágica”, “golpe de mágica na rua”, “golpe do dinheiro amaldiçoado” e venda de artigos mágicos que não seriam entregues. Em determinado momento, afirma: “É exatamente o que os mágicos fazem. Canalhas. Tomem cuidado com os mágicos.”

A frase, isoladamente, já seria grave pela generalização. Mas o vídeo vai além.

Na sequência, Bonsaver amplia o tom acusatório e afirma: “Lá podem esconder até criminosos em festas de criança. Pedófilos. Atrás de uma cartola pode ter um criminoso.” Depois, ao mencionar acusações envolvendo David Copperfield, volta a direcionar o alerta ao público infantil: “Tome cuidado com os mágicos que você convida para as festas de criança. Ali pode ter um pedófilo, um criminoso abaixo daquela cartola.”

Pedofilia e abuso sexual não são palavras para criar efeito dramático em vídeo de YouTube. São crimes gravíssimos. Quando um comunicador usa esse tipo de associação para alertar famílias contra mágicos em festas infantis, sem individualizar condutas e sem apresentar prova contra a categoria que acusa, ele não apenas ataca reputações: ele contamina a percepção pública sobre profissionais que dependem de confiança para trabalhar.

O vídeo aproxima casos isolados, crimes genéricos, respostas produzidas por inteligência artificial e denúncias internacionais envolvendo nomes famosos para sugerir um padrão moral da profissão. A mágica, arte baseada em segredo, técnica e desvio de atenção, passa a ser tratada como se fosse naturalmente irmã da fraude. O velho preconceito contra o mágico, como trapaceiro, charlatão ou enganador, reaparece com uma camada ainda mais perigosa: a suspeita de violência sexual. Assista:

É evidente que a mágica, como qualquer campo artístico ou profissional, não está imune a indivíduos problemáticos. Nenhuma classe deve pedir imunidade moral. Mas também nenhuma classe pode ser tratada como cúmplice coletiva de crimes sem que haja fatos concretos, nomes, provas e processos. Existe uma diferença abissal entre denunciar um abusador e sugerir que mágicos, por serem mágicos, devem ser vistos com desconfiança em festas de criança.

Até o momento, o silêncio das entidades mágicas brasileiras chama atenção. Clubes, associações, coletivos e lideranças do setor ainda não apresentaram uma manifestação pública proporcional à gravidade das falas. E esse silêncio cria um problema adicional: quando ninguém responde institucionalmente, a narrativa mais barulhenta ocupa o espaço sozinha.

A classe mágica brasileira já enfrenta desafios suficientes: informalidade, pouca valorização artística, ausência de crítica especializada, escassez de políticas culturais, dificuldade de formação de público e preconceitos históricos. Permitir que um vídeo de grande alcance associe a profissão a estelionato, abuso e pedofilia, sem resposta pública, é deixar que a imagem do setor seja definida por quem não tem compromisso com ele.

Rodrigo Bonsaver tem o direito de se defender de críticas, responder a reacts, contestar exposições sobre seu trabalho e até ironizar desafetos. O que precisa ser discutido é se esse direito inclui lançar suspeita contra profissionais que não têm qualquer relação com a disputa. 

O vídeo de Spooky Houses pode até ter nascido como uma resposta pessoal. Mas terminou atingindo uma profissão inteira. A pergunta que fica é simples: se uma fala pública associa mágicos a algo tão grave quanto pedofilia e abuso, quem fala pela mágica brasileira?

Até agora, aparentemente, ninguém. E esse talvez seja o maior problema.

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