Recentemente Fabrini Crisci, que já foi campeão mundial de mágica e é também artista plástico, postou em seu instagram um vídeo e uma foto de uma pintura chamada “O segredo”, disponível no Instagram.
O quadro mostra um mágico em roupas clássicas, paletó, camisa, gravata borboleta e uma cartola bem grande. Com o rosto inclinado para a esquerda, do ponto de vista do espectador, ele olha para uma caixa, enquanto a segura, da qual sai uma luz. Há uma mesa com cartas espalhadas nas quais estão desenhados os naipes, em uma espécie de bagunça.
O quadro é pintado majoritariamente com tons escuros, tendo cor apenas a joaninha – marca registrada do artista presente em todos os seus quadros -, os naipes vermelhos e a própria caixa, que além da luz, é também vermelha.
A partir destes elementos, este artigo tentará traçar um panorama analítico-interpretativo da pintura.

Reprodução do Instagram @fabrinicrisci
Os elementos obscuros, representados pela presença maciça de tons escuros, parecem apontar para uma espécie de melancolia do mágico. Há um aspecto de solidão, a bagunça na mesa indica qualquer coisa de desleixo, acompanhado também pela camisa e paletó meio amassados. Tudo isso gera um contraste forte com a caixa em si, que além de ser vermelha, ganha destaque com a luz que sai dela.
O segredo, nesse sentido, ilumina, não vemos o que tem dentro da caixa, mas sabemos que o artista é iluminado por ele. O quadro ganha com isso uma atmosfera de mistério, como se representasse com a pintura a sensação que um número de mágica é capaz de causar: não entendemos como, mas algo impossível acontece.
A atmosfera sombria na qual o mágico está imerso junto ao contraste desse segredo que o ilumina, parece indicar uma espécie de realidade sui generis do artista mágico: guardar um segredo é solitário. Ao mesmo tempo, o segredo é necessário e essencial para que a mágica exista no plano material.
Não revelá-lo, tê-lo só para si, é uma espécie de dubiedade satisfatória (ilumina o artista) e ao mesmo tempo melancólica (os tons escuros que o indicam). A questão da obscuridade é tamanha no quadro que a mão do mágico tem um aspecto surrealista, sendo quase monstruosa e, seja pelo jogo de luz, seja por ser assim, é também meio cinza.
O rosto, ao contrário, ganha tons de pele ao ser iluminado pelo segredo. Todavia, a expressão facial é também dúbia, apontando para a subjetividade da questão: o segredo o satisfaz ou é mais um elemento de sua melancolia? Nesse jogo ambivalente há um rosto cansado e pleno ao mesmo tempo.
Ele quase sorri, mas não o faz. Seus olhos estão quase fechados, mas é possível ver a íris. A luz o cega ou o preenche? A legenda com a qual o pintor postou é muito interessante: “A magia só respira porque algo permanece escondido. Guardar o segredo é manter viva a ilusão”. É, porém, também melancólico e solitário.
A cartola enorme junto à posição do mágico, ajuda a criar um ponto vazio no canto superior direito do quadro, indicando que o segredo puxa toda a atenção do ilusionista.
Se pensarmos, para efeitos comparativos, que vivemos na época da revelação maciça de mágica nas redes sociais, com a proliferação de diversas formas banais de como a arte chega ao público, a figura de um mágico clássico, segurando docemente, mas com mãos monstruosas, uma caixa da qual sai a iluminação do segredo, ganha aspectos sociais muito pertinentes: a ideia melancólica que é assumir que a tradição do segredo (tradicional, pois representada por um mágico clássico, ideia de antigo) está se perdendo com uma massiva exposição banal dessa dimensão da mágica.
Guardar um segredo é difícil, ilumina e é normal querer compartilhá-lo, mas a magia só respira se ele permanecer escondido.
Há uma poética muito assertiva neste quadro, manter o segredo é uma espécie de solidão que ilumina. Talvez seja possível refletir que, psicanaliticamente falando, aqueles que revelam não sabem lidar com o ofuscamento que a luz do segredo causa ao olhar do artista.
Outra hipótese que o quadro pode trazer como reflexão sobre quem expõe técnicas de mágica, é não saber lidar com a solidão de guardar o mistério. Naturalmente estas são partes que extrapolam a pintura, mas reflexões advindas dela.
Fabrini nos ensina: nós mágicos, por mais solitário e melancólico que isso seja, devemos segurar docemente com nossas mãos monstruosas a caixa do segredo que nos iluminará.

