Entrevista

Quem é Victor Miana, o jovem revelação que escolheu o caminho mais difícil da mágica 

Aos 19 anos, o mágico carioca venceu a categoria palco no Festival Internacional de Ilusionismo de Belo Horizonte com um ato de manipulação e conquistou a melhor colocação em cartomagia.

Jovem, tímido fora do palco e cada vez mais presente nos encontros de mágica pelo Brasil, Victor Miana começa a chamar atenção como um dos nomes revelação da nova geração da mágica brasileira. Recentemente, ele venceu o campeonato de mágica de palco do Festival Internacional de Ilusionismo de Belo Horizonte com um ato de manipulação, além de conquistar o terceiro lugar em cartomagia, o que na prática, foi a melhor colocação concedida na categoria, já que o primeiro e o segundo lugar ficaram desertos.

Em uma geração em que muitos jovens mágicos começam pelas cartas, pelo close-up e pelas redes sociais, Victor escolheu um caminho menos óbvio: a manipulação, uma linguagem clássica, técnica, visual e extremamente exigente. É uma área que cobra treino, precisão, presença cênica e, principalmente, maturidade para transformar habilidade em um ato cênico.

Natural de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Victor, que faz questão de destacar que o “c” de seu nome é pronunciado, tem 19 anos e cursa Fonoaudiologia. Fora da mágica, ele se define como alguém reservado. “Eu sou uma pessoa extremamente tímida. Fora dos palcos, sou muito tímido”, conta. A contradição aparente, no entanto, faz parte da relação dele com a mágica desde cedo. “Quando você faz mágica, geralmente sobe um espírito em você. Você se torna uma pessoa mais forte”, diz.

A primeira memória mágica de Miana vem de casa, mais precisamente, de uma festa de aniversário. Segundo ele, tudo começou quando tinha apenas um ano de idade, durante uma apresentação do mágico Almick. “Meus pais contam que eu fiquei vidrado, olhando aquilo tudo e depois fui pro colo do mágico.”

Arquivo pessoal/Cintia Miana

Sua paixão infantil continuou aparecendo nos detalhes. Na escola, enquanto outras crianças desenhavam casas, Victor desenhava a si mesmo fazendo mágica. Foi então que sua mãe percebeu o interesse e procurou Almick para saber se ele poderia ensinar alguma coisa ao filho, então com sete anos de idade. O que parecia uma aula simples virou um acompanhamento de dois anos. “Eu ia na casa dele toda semana para ele me ensinar mágica e me mostrar como funcionavam”, lembra.

Depois desse primeiro contato, Victor passou anos praticando por conta própria, apresentando para amigos, fazendo mágicas na escola e também algumas apresentações informais. O reencontro com a comunidade mágica veio mais tarde, quando viu uma publicação sobre uma reunião do CBI, Círculo Brasileiro de Ilusionismo. Ele mandou mensagem perguntando se poderia participar e, depois de convencer a mãe a levá-lo até Botafogo, do outro lado da cidade, entrou em contato com mágicos que até então conhecia pela internet.

“Foi muito legal, porque tudo que eu via na internet eu conheci pessoalmente”, relembra. Para ele, a convivência com outros mágicos teve papel decisivo em sua evolução. “Os três principais mágicos para eu me tornar mágico foram Almick, Carvalho e Janjão. O quarto mágico são todos os outros”, filosofa Miana.

Nas reuniões, Victor encontrou troca, crítica e referências. “Todo mágico que eu conheci, até aqueles que me trataram mal, me fizeram querer ser um pouco mais mágico”, afirma. O convívio também mudou a forma como ele pensava os efeitos. Antes, fazia mágicas clássicas como a carta ambiciosa. Depois, passou a buscar sentido e narrativa. “Não é só apresentar a carta subindo. É pensar diferente, pensar em uma história por trás.”

A manipulação surgiu quase como consequência de uma habilidade antiga. Victor lembra de ver Carvalho girando bolas entre os dedos em uma festa quando ainda era criança. Tentou reproduzir o movimento, treinou e percebeu que tinha facilidade. Anos depois, em uma conferência no CBI, começou a brincar com bolas de manipulação. A reação dos mágicos ao redor foi um incentivo. “Mostrei minha manipulação e falaram: ‘pô, tá bom isso daí, já pode competir’.”

Victor chegou a se associar à entidade, justamente por entender a importância de apoiar e conviver com a mágica brasileira. Por isso, vê com tristeza a interrupção da programação regular da associação, antes do fim do mandato da atual diretoria, após demissão coletiva. Durante anos serviu como ponto de encontro para mágicos no Rio de Janeiro. “Faz muita falta”, afirma. Para ele, o CBI cumpria um papel que ia além das reuniões: acolhia artistas, aproximava gerações e criava um ambiente de troca. “É uma coisa extremamente triste”, lamenta.

Reprodução da Internet

Sua primeira experiência competitiva em palco, no Campeonato Brasileiro de Ilusionismo, em 2024, quase foi bem diferente. A ideia inicial era apresentar um número com produção de pombos, mas a regra mudou pouco antes da competição e o uso de animais foi proibido. Sem o ato pronto, Victor precisou reconstruir o número às pressas. “Eu não tinha nada. Pensei em vários atos diferentes, até em ato de comédia, de tão desesperado que eu estava”,revela.

Foi quando voltou às bolas de manipulação. Com um tripé de madeira e um baú construído por ele mesmo, criou um número com bolas e cartas. Ficou em quinto lugar. Para um competidor ainda menor de idade e não profissional, o resultado foi mais do que suficiente para acender uma nova ambição. “Eu fui muito aplaudido. Aquilo me despertou um sentimento muito bom”, recorda Victor.

O ato vencedor em Belo Horizonte, no entanto, nasceu de outra pesquisa. Durante um ano, Victor estudou novas técnicas, buscou referências modernas e começou a construir um número mais narrativo. A inspiração principal veio do japonês Yuki Iwane, especialmente pela forma como o artista transforma objetos em símbolos dentro da cena. “Ele pega uma bola e tenta encaixar no céu como se fosse uma lua. Aquilo me deu um sentimento novo de querer ter isso.”

A partir dessa referência, Victor começou a olhar para a própria bola branca de manipulação de outro jeito. “Fiquei uns quatro dias olhando aquela bola e pensando: o que essa bola pode ser?” A resposta veio simples e visual: uma bola de neve.

Assim nasceu “Neve”, ato em que Victor cria uma atmosfera fria, sente a neve cair, forma uma bola com as mãos e passa a brincar com aparições, desaparições, multiplicações e mudanças de cor. “Meu ato é sobre uma bola de neve. Eu estou no frio, na rua, sinto a neve caindo, vejo a neve e faço uma bola de neve.”

O número ainda está em processo de amadurecimento. Depois do festival, Victor recebeu feedbacks importantes, inclusive sobre a leitura do conceito. “Muita gente não entendeu que era uma bola de neve, principalmente porque a gente está no Brasil”, comenta. Em vez de ignorar a crítica, ele passou a trabalhar melhor a construção visual da ideia. “Agora dá para entender bem que é uma bola de neve”, afirma.

Divulgação/Paula Andrade

Para Victor, esse tipo de preocupação é essencial. A manipulação, em sua visão, não pode se resumir à demonstração de habilidade. “Aquela época de pegar cartas e só produzir milhões e milhões de cartas já passou. Você mostra habilidade, mas qual o sentido?” O que interessa, para ele, é a relação entre objeto, ação e narrativa. “Precisa existir um motivo para aquele objeto. Quando você conta uma história, leva a mágica para outro patamar.”

A vitória em palco no Festival Internacional de Ilusionismo de Belo Horizonte veio acompanhada de outro resultado expressivo: o terceiro lugar em cartomagia, categoria em que as duas primeiras colocações ficaram desertas. Victor garante que não esperava o reconhecimento. “Eu queria apresentar mesmo. Não estava esperando por nada. Foi uma surpresa enorme.”

O resultado também reforça uma característica importante de sua formação: embora a manipulação tenha se tornado o foco principal, Victor mantém uma relação forte com a cartomagia. Ainda assim, é no palco e na manipulação que ele parece encontrar seu caminho mais autoral. “Eu pretendo continuar com a manipulação, porque é a coisa que mais me deixa feliz. É o que eu mais gosto de treinar, estudar e pensar.”

Sua rotina de estudo mistura referências clássicas e contemporâneas. Victor assiste a atos, pesquisa técnicas, escreve ideias em um caderno e envia vídeos para mágicos de confiança em busca de opinião. “Eu estudo tanto pelo clássico quanto pelo moderno”, explica. “Vou anotando todas as ideias num caderninho”, conta.

A circulação por outros estados também tem influenciado sua visão. No Rio de Janeiro, ele diz ter tido mais contato com a mágica infantil. Em São Paulo, passou a encontrar mais gente ligada ao close-up, à cartomagia e à cena jovem da mágica, especialmente em programações do Clube da Mágica Clandestina. Minas, por sua vez, trouxe a experiência de competir e ser reconhecido em outro ambiente. “Sair da própria bolha muda muita coisa. Você encontra gente diferente, pensamentos diferentes e isso abre a cabeça.”

Além das competições, Victor tem planos que cruzam a mágica com a Fonoaudiologia. A escolha do curso não é aleatória. Ele próprio teve dificuldades de fala durante a vida e passou por atendimentos fonoaudiológicos. Reconhece a importância do processo, mas quer pensar uma abordagem mais lúdica para crianças. “A Fono me ajudou muito, mas era chato. Quero criar um ambiente mais acolhedor, em que a criança possa interagir e ficar feliz.” A ideia é usar a mágica como ferramenta de aproximação, escuta e estímulo. “Poder fazer uma mágica, criar uma interação e ensinar alguma lição com isso é uma coisa que quero levar para a minha vida inteira.”

Divulgação/Paula Andrade

Sua relação com a mágica, no entanto, ainda passa por uma definição muito particular. Mesmo já competindo, se apresentando e sendo reconhecido por outros mágicos, Victor prefere não apressar o rótulo de profissional. “Minha mãe perguntou: ‘Pô, Vitor, você já é mágico profissional?’ Eu falei: ‘Não, eu sou amador. Eu acho que quero ser amador para sempre’”, conta. Para ele, esse caminho só é possível porque existe apoio dentro de casa. “Eu tenho uma sorte muito boa, porque meus pais me apoiam muito. Isso é fundamental”, conclui. 

Mesmo com a vitória recente e a atenção crescente, Victor evita se colocar como representante de uma geração. Prefere se enxergar em processo. “Eu sou jovem e prefiro me ver como alguém em formação.” Para ele, há muitos outros nomes novos surgindo na mágica brasileira, cada um por um caminho. “Vejo muita gente nova, muita gente boa. Eu me vejo como parte disso.”

Entre a timidez fora do palco e o rigor técnico da manipulação, Victor Miana começa a construir uma assinatura própria e trilhar sua careira na mágica. No fim do ano pretende competir no Magic Festival, em Botucatu, e ano que vem vai para a competição mais importante da América latina, o Flasoma. 

Ainda em formação, como ele mesmo faz questão de lembrar, Victor Miana já dá sinais de que encontrou um caminho próprio. A vitória em Belo Horizonte não consagra apenas um jovem talento, mas aponta para um artista disposto a enfrentar uma das linguagens mais difíceis da mágica, sem se contentar com a técnica pela técnica. Entre o treino rigoroso, a busca por narrativa e o desejo de transformar objetos simples em imagens poéticas, Victor começa a construir uma assinatura rara na cena brasileira: a de quem entende que o impossível também precisa contar uma história. 

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