Gonçalo Jorge e Pedro Teixeira construíram uma das carreiras mais premiadas do ilusionismo português, passando pelo FISM, pelo Magic Castle e por grandes produções da televisão europeia. Em entrevista ao Adoro Mágica, a dupla fala sobre criação, dramaturgia, carreira internacional e a vontade de voltar ao Brasil.
Gonçalo Jorge e Pedro Teixeira se conheceram ainda adolescentes na Associação Portuguesa de Ilusionismo, em Lisboa. Na época, os dois faziam mágica individualmente e participavam dos mesmos concursos. A amizade surgiu antes da parceria artística, mas as experiências em conjunto começaram a ganhar espaço até que, em 2004, nasceu oficialmente o Tá na Manga.
No início, a intenção não era necessariamente construir uma carreira internacional. Os dois queriam desenvolver números próprios, criar espetáculos e levá-los aos teatros. Entre os trabalhos que começaram a surgir naquele período estava o Inspirato, número que encerrava as apresentações da dupla e que se tornaria decisivo para tudo o que viria depois.
A proposta era contar a história de um mágico em busca de inspiração, combinando teatro, música e ilusionismo. Cada efeito deveria ter uma razão para acontecer dentro da narrativa. Desde o começo, Gonçalo e Pedro também alimentavam uma ambição: queriam que aquele número os levasse a outros países e, um dia, ao Campeonato Mundial de Mágica do FISM.
“Foi o projeto em que decidimos dar tudo o que tínhamos, as melhores ideias, o máximo de cuidado e toda a nossa ambição criativa”, recorda Gonçalo.

Tá na manga — Inspirato. Divulgação
Em 2009, o Tá na Manga levou o Inspirato para suas primeiras competições internacionais. Naquele mesmo ano, a dupla venceu o Campeonato Francês de Mágica da FFAP e recebeu prêmios na Bélgica e na Itália. A boa recepção de públicos diferentes mostrou que o trabalho poderia ultrapassar as fronteiras portuguesas.
Os concursos também funcionaram como um espaço de experimentação. A cada apresentação, Gonçalo e Pedro ouviam novas opiniões, testavam soluções e aperfeiçoavam o número, que nunca foi considerado definitivamente pronto. Em 2010, foram premiados no Congresso Mágico Nacional da Espanha e receberam o Prêmio do Público no Memorial Frakson, em Madri. No ano seguinte, conquistaram o British Ring Shield, principal prêmio da competição de mágica de palco do congresso do British Ring, no Reino Unido. Pouco depois, receberam o Mandrake d’Or, em Paris.
Quando chegaram ao Mundial do FISM de 2012, em Blackpool, já carregavam uma coleção de prêmios. A experiência acumulada trazia confiança, mas também aumentava a responsabilidade. Até então, apenas dois portugueses haviam sido premiados em um Campeonato Mundial do FISM: um na categoria Cartomagia e outro em Manipulação.
Com o terceiro prêmio em Magia Geral, o Tá na Manga se tornou a primeira dupla portuguesa premiada nessa categoria em um Mundial. Para os dois, a conquista representava a realização de um sonho que vinha sendo cultivado desde muito antes.
“O FISM era, para nós, o maior palco a que um mágico podia aspirar. Por isso, quando em Blackpool ouvimos o nome dos Tá na Manga e de Portugal na cerimônia de prêmios, foi um daqueles momentos difíceis de descrever”, conta Pedro.
Ele acompanhava as edições do campeonato desde o FISM de Lisboa, em 2000. Conhecia os números, os artistas e acompanhava as discussões sobre os resultados. Quando a dupla foi anunciada entre os premiados, a colocação se tornou secundária diante da dimensão daquele momento. O Inspirato, criado com a esperança de levar o Tá na Manga ao mundo, havia cumprido sua missão.
Primeiro a história, depois a mágica
O diferencial do Inspirato está na maneira como o número foi construído. Em vez de reunir efeitos já conhecidos e depois procurar um tema capaz de conectá-los, Gonçalo e Pedro partiram da história. Primeiro foram definidos a personagem, o conflito, a evolução da narrativa e o desfecho. Somente depois começaram a procurar as soluções mágicas necessárias.
“O esqueleto era teatro e dramaturgia. A mágica veio depois. Só quando sabíamos o que queríamos que acontecesse é que procurávamos chegar ao efeito”, explica Gonçalo.
A escolha ofereceu uma liberdade criativa maior. Se a história exigia que algo acontecesse, mesmo que os dois ainda não soubessem como realizar aquilo tecnicamente, a situação se transformava em um problema a ser resolvido. A técnica precisava servir à ideia, e não determinar os limites da criação.
Para Gonçalo, começar um número pelos efeitos seria como um diretor tentar construir um filme apenas a partir dos recursos visuais que sabe produzir. Dinossauros, tubarões e uma perseguição de automóveis poderiam ser impressionantes separadamente, mas dificilmente formariam uma boa narrativa apenas por estarem reunidos.

Divulgação
Essa maneira de trabalhar se tornou parte da identidade artística do Tá na Manga. Teatro, cinema, música, dança e artes visuais passaram a funcionar como referências tão importantes quanto o próprio ilusionismo.
“Para nós, a mágica é uma linguagem artística e o efeito é uma das ferramentas que temos para comunicar com o público. O problema surge quando o efeito se torna o objetivo final e tudo o resto existe apenas para o justificar”, afirma Pedro.
Um efeito pode ser tecnicamente extraordinário e provocar uma reação intensa sem que, necessariamente, produza uma experiência artística relevante. Por isso, a dupla procura começar por outras perguntas: o que deseja fazer o público sentir? Que imagem pretende criar? Qual história quer contar? Somente depois dessas respostas a técnica entra em cena.
A intenção não é eliminar a pergunta “como eles fizeram isso?”, tão característica do ilusionismo. Gonçalo e Pedro querem, porém, que algo permaneça depois do espanto: uma emoção, uma imagem ou uma ideia capaz de acompanhar o espectador para além daquele instante.
Um número nunca está completamente terminado
Apesar de ter sido apresentado em diversos países, o esqueleto dramatúrgico do Inspirato permanece praticamente o mesmo desde sua estreia. A história e a sequência dos acontecimentos já estavam presentes na primeira versão. O que mudou foram os efeitos e, principalmente, a maneira de apresentá-los.
Com o aumento da experiência e do conhecimento técnico, a dupla encontrou soluções mais visuais, limpas e diretas. Centenas de pequenos ajustes também foram feitos em cena: um movimento retirado, uma pausa encurtada ou uma ação tornada mais clara. Aos poucos, tudo o que produzia ruído sem acrescentar algo ao número foi eliminado.
Depois do Inspirato, o Tá na Manga apresentou o Piano, trabalho que utiliza outros recursos, mas preserva a sensibilidade e a identidade artística da dupla. Uma das primeiras versões da ideia surgiu em um vídeo produzido para a internet, que repercutiu dentro da comunidade mágica. A reação incentivou Gonçalo e Pedro a pensar em uma adaptação para o palco, caminho que também recebeu o estímulo de Luís de Matos.

Piano. Divulgação
O número foi praticamente reinventado durante esse processo. Em sua essência, trata-se de uma apresentação de cartomagia levada ao palco com o auxílio da projeção. A imagem ampliada, entretanto, não funciona apenas como uma forma de permitir que o público enxergue as cartas. Ela participa da linguagem do número e cria novas possibilidades para a construção dos efeitos.
A música também é executada ao vivo. Enquanto Pedro toca piano, Gonçalo se movimenta com as cartas em uma coreografia próxima de um balé. As cartas acompanham a música, a música responde às cartas e os dois artistas interagem durante toda a apresentação. Movimento, imagem, som e ilusionismo passam a formar uma única composição.
Duas cabeças, muitas ideias ruins e nenhuma censura
Criar em dupla exige uma dinâmica própria. No caso do Tá na Manga, o processo começa com uma regra fundamental: durante a primeira etapa, nenhuma ideia deve ser julgada. Os dois precisam ter liberdade para sugerir inclusive as propostas mais absurdas, sem receber imediatamente como resposta que aquilo não funcionará.
“Às vezes uma ideia péssima tem lá qualquer coisa que leva a outra, depois o outro acrescenta qualquer coisa e, cinco ideias mais tarde, chegamos a um sítio que nenhum de nós teria encontrado sozinho”, explica Pedro.
Para eles, o medo de falar um disparate pode eliminar uma ideia interessante antes que ela tenha a oportunidade de se desenvolver. O rigor aparece em uma segunda etapa, quando já existe algum material sobre o qual trabalhar. Nesse momento, os dois passam a questionar tudo: se determinada ação é necessária, se existe uma solução mais simples ou se outra escolha produziria um resultado melhor. Muitas vezes, o ponto de chegada está bastante distante da ideia que iniciou o processo.
Do Magic Castle ao retorno ao FISM
Ao longo da carreira, o Tá na Manga se apresentou na Europa, na Ásia, na África e nas Américas. Entre as experiências mais marcantes está a passagem pelo Magic Castle, em Hollywood, lugar considerado mítico pelos ilusionistas. Receber o convite para se apresentar ali representou a concretização de mais um sonho.
Outro momento importante foi a participação no programa francês Le Plus Grand Cabaret du Monde. Gonçalo e Pedro acompanhavam a atração havia anos e tinham visto alguns de seus ídolos passarem por aquele palco. Na apresentação da dupla, o criador e apresentador Patrick Sébastien afirmou nunca ter visto tamanha originalidade em um número de mágica — comentário que permanece na memória dos dois.
Em 2022, dez anos depois de serem premiados em Blackpool, eles retornaram ao Campeonato Mundial do FISM, realizado no Québec. Dessa vez, não estavam entre os competidores, mas como artistas convidados para uma das galas. Diante da importância que o campeonato sempre teve na trajetória da dupla, a apresentação representou o fechamento de um ciclo: os dois adolescentes que sonhavam em chegar ao Mundial agora voltavam ao evento como convidados.
O impossível ainda pode surpreender?
Em um momento no qual qualquer pessoa pode assistir a dezenas de efeitos em poucos minutos nas redes sociais, Gonçalo e Pedro acreditam que ainda é possível surpreender verdadeiramente uma plateia. Para isso, porém, talvez já não seja suficiente apresentar apenas algo inexplicável.
Estamos cercados por tecnologias cujo funcionamento a maioria das pessoas não compreende e, ao mesmo tempo, expostos a imagens extraordinárias cuja origem pode estar na edição, nos efeitos visuais ou na inteligência artificial. Nesse contexto, o impossível corre o risco de se tornar trivial.
O desafio, segundo o Tá na Manga, é provocar algo que ultrapasse a dúvida sobre o método. O efeito ganha outra dimensão quando desperta uma emoção, ajuda a contar uma história ou constrói uma imagem que permanece na memória.
Também existe uma diferença fundamental entre assistir a um vídeo e presenciar uma apresentação. “No teatro não há scroll, não há replay. Estamos todos naquele espaço, naquele momento, e alguma coisa impossível acontece”, resume Gonçalo.

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A relação com o Brasil
A dupla guarda boas lembranças da passagem pelo Brasil. Gonçalo e Pedro estiveram no Rio de Janeiro para participar do Magic in Rio, a convite de Andrély, artista com quem já dividiram o palco diversas vezes em diferentes países. Durante a visita, conheceram Henry Vargas, Rafael Titonelly, Juan Araújo e outros representantes da comunidade mágica brasileira que voltariam a encontrar ao longo dos anos.
Entre os artistas brasileiros admirados pelos portugueses estão Vik e Fabrini. Além de também trabalharem em dupla, falarem português e terem sido premiados no FISM, os dois possuem uma identidade artística com a qual Gonçalo e Pedro se identificam.
A relação ganhou um capítulo especial quando Fabrini pintou um quadro inspirado no Tá na Manga. A obra é guardada com carinho pelos portugueses. Para eles, ver um artista admirado observar o trabalho da dupla e transformá-lo em uma nova criação foi uma experiência particularmente significativa.
Já faz algum tempo desde a última apresentação do Tá na Manga no país, mas o desejo de retornar permanece. A dupla espera reencontrar o público brasileiro e retomar o contato com os amigos que fez por aqui.

Inspiration – Fabrini Crisci. Reprodução
Mesmo depois dos prêmios, das viagens, das apresentações internacionais e dos grandes palcos, Gonçalo e Pedro acreditam que ainda existe muito a realizar. Há países nos quais nunca atuaram, teatros que gostariam de conhecer e públicos que ainda não tiveram contato com seu trabalho. Ao mesmo tempo, voltar aos lugares nos quais foram felizes também faz parte dos planos.
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“Nunca fomos muito de fazer uma lista de coisas que temos de conquistar. Grande parte do nosso percurso aconteceu porque uma coisa foi levando à outra. Por isso, queremos sobretudo continuar a atuar e ver onde é que a magia ainda nos leva”, conclui Gonçalo.
A trajetória do Tá na Manga mostra que a força da mágica não está apenas no efeito que surpreende, mas nas escolhas que dão sentido ao que acontece em cena. Ao colocar dramaturgia, música e movimento no centro da criação, Gonçalo e Pedro desenvolveram uma identidade própria e levaram a mágica portuguesa aos principais palcos internacionais. Quase duas décadas depois do início da dupla, eles continuam fazendo o que motivou essa parceria: criar, atuar e descobrir até onde a mágica ainda pode levá-los. Será que de volta ao Brasil?

