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“Quem é o Mágico?” revelou, involuntariamente, um problema incômodo da mágica

O canal Aqueles Caras publicou o episódio do quadro “Quem é o mágico?”, no qual os integrantes do grupo, acompanhados pelo mágico e criador de conteúdo Felipe Barbieri, precisavam descobrir qual dos cinco candidatos realmente trabalhava com mágica. Quatro eram impostores. Apenas um era profissional. A proposta era simples e divertida, mas o vídeo acabou levantando uma questão bem menos confortável: todos poderiam tranquilamente se passar por mágicos.

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Os participantes contaram histórias, citaram referências, falaram sobre cartomagia, escapismo, mágica infantil e apresentaram números com cartas, cordas, dados e lenços. Alguns estavam nervosos, outros cometeram erros e quase todos demonstraram pouca experiência. Ainda assim, as mágicas funcionaram. Houve surpresa, risadas e reações genuínas. Para o público leigo, isso foi suficiente para mantê-los sob suspeita.

Reprodução do Youtube

A conclusão é um pouco cruel, mas difícil de negar: para parecer mágico, não é necessário ser mágico. Basta comprar um número, assistir à explicação, repetir os movimentos e apresentar. O efeito faz boa parte do trabalho. Como diz Michael Weber, a mágica é uma forma de arte suficientemente forte para sustentar um artista fraco.

Em outras áreas, fingir competência costuma exigir mais esforço. Para parecer músico, é necessário tocar ou cantar minimamente bem. Para desenhar, pintar ou dançar, alguma técnica precisa aparecer. Na escrita, ainda é preciso organizar ideias e dominar o idioma, embora a internet se esforce diariamente para provar o contrário. Na mágica, um efeito eficiente pode entregar um resultado impressionante mesmo nas mãos de alguém sem presença cênica, ritmo, texto ou qualquer pensamento artístico.

O problema não está nos números prontos nem nos métodos simples. Grandes artistas usam recursos simples e criam apresentações extraordinárias. O problema começa quando o mágico compra o segredo, aprende os movimentos e considera o trabalho encerrado. Não desenvolve texto, contexto, personalidade ou relação com o público. Torna-se apenas o demonstrador de um produto da loja de mágicas.

Isso funciona porque boa parte do público brasileiro ainda possui pouco repertório sobre ilusionismo. Muitas pessoas nunca assistiram a um espetáculo de mágica ao vivo. Suas referências se resumem ao Mr. M, a vídeos editados nas redes sociais e, talvez, a uma apresentação questionável em alguma festa infantil. Sem acesso, não há comparação. Sem comparação, não há critério.

Por isso, quando alguém escuta uma música ruim, não conclui que odeia música. Quando assiste a um filme ruim, não decide abandonar o cinema. Mas, depois de uma apresentação ruim de ilusionismo, é comum ouvir: “Eu não gosto de mágica”. Aquele artista específico passa a representar toda a linguagem, porque o espectador não possui outra referência para separar o mágico despreparado da arte que ele executa mal.

A falta de repertório também produz o efeito contrário: mágicos ruins são percebidos como excelentes. Basta o efeito funcionar, o figurino estar minimamente alinhado e a apresentação ser feita com alguma convicção. Quando o público não sabe reconhecer qualidade, qualquer carta aparecendo na carteira, depois de uma labareda, parece prova suficiente de excelência profissional.

Apesar dessa exposição involuntária das fragilidades da arte, conteúdos como esse são importantes para popularizar a mágica e mantê-la na cabeça dos espectadores. Felipe Barbieri não apenas acertou quem era o mágico verdadeiro, como aproveitou o quadro para explicar categorias, termos, referências e fatos sobre a arte. Entre uma piada e outra, o público saiu sabendo um pouco mais sobre cartomagia, mentalismo, escapismo, close-up e mágica de palco. Pode parecer pouco, mas é justamente esse contato que aumenta o nível de consciência do espectador e começa a construir o repertório que ainda falta.

Esse cenário só mudará mesmo quando a mágica se tornar uma opção mais acessível e frequente de entretenimento. Quanto mais espetáculos, artistas e estilos o público conhecer, maior será sua capacidade de perceber técnica, dramaturgia, originalidade, personalidade e domínio de cena. Nesse momento, fazer o número funcionar deixará de ser suficiente. O público começará a escolher mágica boa. Hoje, na maior parte das vezes, aceita a mágica que tem.

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