Crítica

“Impossível” entrega bons mágicos, mas ainda não entrega um espetáculo bom

“Impossível”, espetáculo dirigido por Gabriel Bulcão e estrelado por Felipe Barbieri, Lucas Toledo e Diego Costa, parte de uma premissa generosa: reunir no palco três nomes conhecidos da mágica brasileira em uma noite com números variados, participação do público e ambição teatral. O problema é que a generosidade da ideia não resolve a falta de unidade do resultado. O que se vê em cena ainda está mais próximo de uma gala de festival de mágica do que de um espetáculo propriamente dito.

A estrutura é conhecida: um mestre de cerimônias aparece em frente à cortina, conversa com a plateia, faz uma mágica, segura a transição enquanto o próximo ato é preparado e, depois, outro mágico entra para apresentar seu número. Não há nenhum pecado nesse formato. Ele funciona muito bem em convenções, encontros e festivais. Mas, quando vendido como espetáculo teatral, exige costura, ritmo, trilha, iluminação, progressão e, principalmente, um motivo para que aqueles números existam juntos no mesmo palco. Em “Impossível”, esse motivo ainda não aparece com clareza.

Formado em Artes Cênicas pela CAL e em Dança pela Angel Vianna, Gabriel Bulcão já dirigiu espetáculos de teatro e de mágica como “Maravilhoso Escândalo”, “Fora Deste Mundo” e “Não Pisque”. Há, portanto, um olhar de dramaturgia tentando organizar o palco. Mas esse olhar, aqui, esbarra em uma limitação importante: Bulcão parece compreender melhor o teatro do que a direção de mágica. E mágica não se dirige apenas com marcação, intenção e atmosfera. Mágica precisa de limpeza, timing, repertório e hierarquia de efeitos. É justamente aí que “Impossível” mais derrapa.

O resultado é um conjunto irregular. Há bons momentos, há reações genuínas da plateia, há efeitos fortes. Mas falta uma engenharia de espetáculo. A trilha sonora não constrói uma identidade: Diego entra em uma música épica e teatral, Barbieri vem com rock, Lucas muitas vezes aparece sem trilha alguma. As transições entre atos ficam secas, funcionais e pobres. Quando espectadores são chamados ao palco, falta música, falta desenho, falta uma atmosfera que sustente a ação. A iluminação também parece cumprir a função mínima de deixar todo mundo visível. Não há ali uma luz que pense, que comente, que recorte ou que ajude a transformar número em cena.

E isso chama atenção porque “Impossível” não parece um espetáculo que acabou de fazer uma temporada bem sucedida de um mês no Rio de Janeiro. 

Foto: Henri Sardou/Adoro Mágica

Lucas Toledo ocupa a função de mestre de cerimônias, mas pareceu abaixo do que costuma entregar. Quem conhece Lucas sabe que ele tem presença, leitura de cena e manejo de público. Nesta apresentação, no entanto, entrou em um tom excessivamente baixo, sem energia. A abertura, especialmente, precisava puxar a energia da sala para cima. Em vez disso, o espetáculo começou “flat”, quase pedindo licença. O número da corda veio correto, mas sem impacto para abertura. Mais adiante, com a garrafa, o efeito é forte o bastante para funcionar, mas faltou clímax. Lucas ainda tem bons momentos, sobretudo quando performa a mágica dos lenços e quando conduz interações, mas o conjunto ficou aquém da sua performance habitual. 

Diego Costa é o ponto mais problemático do espetáculo. Seu primeiro ato, visual, sofreu com problemas técnicos, mas os problemas não se limitam à técnica. Há uma sujeira de movimento que nem a direção de Gabriel Bulcão conseguiu limpar. Diego parece querer se livrar rapidamente dos efeitos, como se cada mágica fosse uma obrigação a ser despachada. Falta saborear o impossível. Falta deixar a plateia entender o que está acontecendo, onde olhar, porque aquilo importa. Confusão não é mágica. Em alguns momentos, bons efeitos aparecem empilhados, sem respiro, sem encadeamento e sem consequência. Livro de fogo, tela, jornal, quadro, baralho, bengala, guarda-chuva, zombie ball: tudo passa, pouca coisa fica.

A zombie, por exemplo, tem uma ideia interessante quando tratada como luta entre mágico e ser voador. Mas a movimentação abrupta compromete a leitura. Em vez de parecer uma marionete ganhando vida, parece um artista brigando com um acessório. A mágica precisa parecer inevitável, não acidental.

A segunda entrada de Diego consegue ser ainda mais frágil. O personagem infantilizado, os gritos estridentes e a tentativa de compor um tipo supostamente engraçado para crianças afastam sua participação do restante do elenco. Enquanto Lucas e Barbieri trabalham em registros mais naturalistas, Diego mergulha em uma teatralidade forçada. A diferença não seria um problema se houvesse direção para justificar essa ruptura. Mas não há.

Há ainda um desperdício difícil de ignorar. O bom de fazer mágica em teatro é justamente poder experimentar, sair do número comercial, testar linguagem, correr risco artístico. Diego tinha essa chance. Preferiu empilhar soluções prontas, gags conhecidas e uma condução que parece buscar resposta fácil e reação da plateia, que a despeito de tudo isso, não desgosta do que vê. 

Foto: Henri Sardou/Adoro Mágica

Felipe Barbieri, por outro lado, foi o melhor da noite. E não por acaso. Barbieri tem amadurecido como artista. Cada vez mais, parece entender que mágica não é apenas o efeito, mas a forma como se chega até ele. Sua entrada com o número de mentalismo resolve bem um problema clássico da categoria: a fase expositiva longa demais. Ao transformar essa construção em jogo com a plateia, com humor e participação, com a dinâmica do telefone sem fio, ele mantém interesse, cria ritmo e dá função dramática ao processo. O público não fica esperando a mágica acontecer; participa da engrenagem dela.

O ato todo tem boas sacadas, boa condução e reações fortes. Há pequenos pontos a ajustar, como o momento do dado na roleta russa, que ainda pede mais atenção. Mas nada compromete o resultado geral. Barbieri entende o tempo da plateia, sabe criar tensão, aceita o humor sem se perder nele e mostra segurança. Mesmo com microfone baixo, foi quem mais sustentou presença, interesse e impacto. Sua mágica parece estar a serviço da cena, não o contrário.

“Impossível” também sofre com a própria composição. O espetáculo é um Frankenstein: pedaços de outros espetáculos, atos avulsos, ideias reaproveitadas, estilos diferentes e pouca costura entre eles. Isso não significa que tudo seja ruim. Pelo contrário: há bons materiais ali. Mas material bom, junto, não vira automaticamente um espetáculo. É preciso organização estética. É preciso saber o que cortar, o que alongar, o que reposicionar e o que abandonar.

O público, ao que parece, gostou. Houve boas reações e até standing ovation. Isso importa. Mas a recepção calorosa não elimina os problemas de acabamento. Muitas vezes, a plateia compra o carisma dos artistas e a força dos efeitos, mesmo quando a estrutura falha. A questão é que “Impossível” poderia ser mais do que uma noite simpática de bons mágicos. Poderia ser um espetáculo de mágica contemporânea com linguagem, unidade e assinatura, mas ainda não é.

Por enquanto, “Impossível” mostra três artistas em cena, alguns bons momentos e uma direção que parece querer decorar a casa, sem fazer reforma. A mágica brasileira precisa ocupar teatros, sim. Precisa disputar espaço como linguagem cênica, sim. Mas, para isso, precisa entender que teatro não é apenas um lugar onde se coloca uma cortina entre um número e outro. Teatro exige escolha e renúncia. “Impossível” ainda escolhe pouco e renuncia muito.

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