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Mágica brasileira começa a olhar para si mesma de forma estratégica

Durante muito tempo, a mágica brasileira se desenvolveu mais pela força dos artistas do que pela força de uma estrutura. Encontros informais, grupos de estudo, associações locais, festivais, lojas, clubes, pesquisadores e fomentadores mantiveram a arte viva, mas nem sempre isso virou registro, dado, memória ou política pública.

Agora, alguns movimentos apontam para uma mudança importante: a mágica começa a olhar para si mesma de forma estratégica.

Um desses movimentos vem de Fernando Ás, mágico e pesquisador que está escrevendo um livro sobre a história da Arte Mágica no Brasil. Além da pesquisa histórica, Fernando montou um grupo de trabalho para mapear entidades, iniciativas e fomentadores da mágica no país. “A minha diretriz foi colocar hoje as principais associações de cada estado que estão ativas e os fomentadores da mágica. Museus, clubes, pesquisadores e escritores”, conta Fernando.

Registro da reunião para articulação da Federação Brasileira de Entidades Mágicas. Reprodução

O levantamento já contempla 10 estados, o que representa cerca de 35% do Brasil. Pode parecer pouco, mas é um passo enorme para uma área que, historicamente, sempre funcionou muito mais por redes informais do que por registros públicos organizados.

Nesta primeira fase, a ideia é entender também quais estados estão com entidades inativas ou sem articulação visível. Mas o objetivo de Fernando vai além do mapeamento: ele pretende articular a criação da Federação Brasileira de Entidades Mágicas, uma entidade pensada para congregar as associações de mágica do Brasil.

No último dia 9 de julho, Fernando organizou uma reunião com representantes das principais entidades mágicas brasileiras e fomentadores da mágica para apresentar as bases e começar a discussão em torno da Federação. Ruberdek, Kradyn Júnior, David Medina, Rafael Seára, Delfus, Edson Dupret, Henri Sardou, dentre outros mágicos e entusiastas participaram da conjuração, que promete outras reuniões até sua fundação oficial.

Rudi Solon promove pesquisa sobre a mágica no Brasil. Reprodução do Instagram

Outro levantamento importante vem de Rudi Solon, da Cia Fundo Falso. Em fevereiro, ele lançou uma pesquisa para entender melhor quem são os mágicos brasileiros e como está organizado o cenário profissional da mágica no país. “Ainda sabemos muito pouco sobre nós mesmos. Enquanto faltarem dados, articulação entre associações e cooperação, continuaremos enfrentando desafios comuns de forma isolada”, diz Rudi.

A frase toca em um ponto sensível. A própria definição da profissão ainda é difusa. O mágico transita entre circo, artes cênicas, eventos corporativos, festas, palestras, criação de conteúdo, educação, audiovisual e outras áreas. Mas, muitas vezes, este trânsito acontece sem um reconhecimento claro do que essa atividade representa dentro da cultura e do mercado.

Como ponto de partida, Rudi fez um levantamento dos registros de DRT de artistas com a função de mágico em situação ativa. A análise identificou aproximadamente 330 registros válidos, concedidos entre 1980 e 2025. A pesquisa ainda está em desenvolvimento e quem quiser participar pode acessar o questionário.

“É um número pequeno para um país do tamanho do Brasil”, afirma Solon. Mais do que revelar quantos mágicos têm registro formal, esse dado mostra outra coisa: ainda conhecemos pouco o tamanho real da nossa comunidade. E boa parte da mágica brasileira segue fora das ferramentas de política pública, estatística cultural e reconhecimento profissional. Por incrível que pareça, a mágica brasileira ainda vive num certo amadorismo.

Esse movimento de pesquisa também chega ao audiovisual.

Daniel Prado dirige o documentário “Mágica Existe”, produzido por Henri Sardou. Repredução do Instagram

Henri Sardou e Daniel Prado estão produzindo o curta-metragem documental “Mágica Existe”, em fase de captação, que propõe um paralelo entre a mágica e a arte urbana. A aproximação parte de uma leitura interessante: as duas manifestações carregam trajetórias parecidas, marcadas por potência artística, presença popular e, ao mesmo tempo, dificuldade de reconhecimento institucional.

“Ambas são manifestações que ainda não são totalmente compreendidas como artísticas. Somente hoje a arte urbana ganhou status e passou a entrar em galerias de exposição na Europa e EUA”, afirma Henri. Para ele, a mágica no Brasil passa por um momento semelhante.“Aqui a mágica ainda está muito associada aos eventos e não tanto aos teatros”, completa.

A questão central é a visibilidade. Contraditoriamente, a arte que faz as coisas desaparecerem ainda não consegue ter a visibilidade que precisa para se desenvolver como indústria de entretenimento no Brasil.

Henri Sardou é o produtor e idealizador do documentário. Divulgação

O documentário parte dessa invisibilidade para investigar um paradoxo: o Brasil tem artistas reconhecidos internacionalmente, campeões mundiais, criadores sofisticados, pesquisadores, diretores, performers e espetáculos ocupando teatros, mas a mágica ainda não conquistou, no imaginário popular, o mesmo lugar cultural ocupado pelo teatro, pela música, pela dança, pela comédia ou pelas artes visuais.

Daniel Prado, multiartista que atua como mágico, músico, artista visual e videomaker, assina a direção do documentário, produzido pelo Estúdio Harry. “Documentários são uma forma muito instigante de se contar uma história, justamente porque são capazes de retrata-la enquanto ela acontece”, afirma Prado. “Esse tem sido um momento muito especial para a mágica brasileira que tem renascido artística e tecnicamente nos últimos anos e nada melhor que um documentário para registrar esse movimento”, conclui.

O que une essas iniciativas é uma mudança de postura. Não se trata apenas de fazer mais shows, vender mais apresentações ou formar novos mágicos. A mágica brasileira começa a sair da invisibilidade não apenas pelo impacto do palco, mas também pela consciência de sua própria história, de seus artistas e de seu futuro.

Foto da capa: Paula Andrade/Festival Internacional de Ilusionismo de BH

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