O Pega a Visão chega diferente esta semana: em vez de três assuntos, um mergulho só, mas daqueles que rendem conversa até o próximo congresso. Entre os dias 20 e 24 de maio, Belo Horizonte recebeu o Festival Internacional de Mágica e Ilusionismo de BH, reunindo conferências, galas, concursos de palco e close-up em uma maratona que mostrou o melhor, o mais promissor e também algumas manias que a mágica brasileira ainda insiste em conservar. Teve Jeff McBride lembrando que detalhe também é dramaturgia; teve homenagem emocionante de Kradyn Jr.; teve Vitor Miana, aos 18 anos, saindo como grande nome competitivo do festival; teve discussão sobre criação de espetáculo, piadas que não entraram, crianças que tomaram conta do palco e aquele velho desconforto necessário que todo bom evento deixa quando acaba. Para quem não conseguiu acompanhar de perto, nosso enviado especial Giancarlo Massimo preparou um review com olhar crítico, afiado e sem passar pano, porque congresso bom não é o que termina em consenso, é o que obriga a comunidade a se olhar no espelho.

Divulgação/Paula Andrade.
BH MOSTROU O FUTURO DA MÁGICA BRASILEIRA, MAS TAMBÉM EXPÔS SEU ATRASO
O Festival Internacional de Mágica e Ilusionismo de Belo Horizonte terminou deixando aquela sensação familiar aos bons congressos de mágica: saímos cansados, sobrecarregados de informação, com algumas certezas abaladas, outras confirmadas, e uma pergunta incômoda rondando a cabeça: estamos de fato olhando para a mágica como arte ou apenas repetindo, com mais luz e incenso, os mesmos vícios de sempre?
A edição da última semana teve a ambição que se espera de um festival internacional: conferências, galas, concursos de palco e close-up. Um congresso, no sentido mais clássico do termo, onde mágicos assistem a mágicos, aprendem com mágicos, julgam mágicos, discordam de mágicos e, no fim, seguem para o café falando mal e bem das mesmas pessoas com a mesma intensidade. Nada mais saudável para uma comunidade artística do que o atrito. Desde que ele produza reflexão, claro, e não apenas ressentimento.
Conferências: muito conteúdo, mas muita vitrine
Foram 18 conferências no total, um número generoso, talvez até demais para qualquer cérebro humano que ainda deseje sair do congresso lembrando o próprio CPF. Como em todo evento do tipo, houve aquela divisão inevitável entre conferências que entregam pensamento, conferências que entregam técnica e conferências que, no fundo, entregam só catálogo de produtos.
A beleza de um festival com uma programação extensa assim, é que a gente pode desapegar sem culpa de atividades que acaba ficando humanamente impossível acompanhar. Tanto melhor, pois é justamente essa a desculpa perfeita para a troca nos momentos fora da programação. Com esse aviso, me liberto também de comentar sobre tudo e vou falando apenas do que assisti, ouvi falar e achei relevante comentar, para o bem ou para o mal.
Jeff McBride, era naturalmente um dos nomes mais aguardados. E não decepcionou, enquanto pensamento mágico. Sua conferência teve o mérito de recolocar atenção sobre algo que muitos mágicos dizem entender, mas poucos praticam: o detalhe. McBride não fala apenas sobre fazer aparecer um lenço, produzir flores ou construir uma sequência visual. Ele pergunta por que aquilo acontece, de onde vem o gesto, qual é a justificativa da explosão, que tipo de energia cênica sustenta a aparição. Em tempos de mágica feita por tutorial, ouvir alguém tratar a produção de um lenço com dramaturgia mínima é quase um ato de resistência.
Bernardo Sedlacek, por sua vez, entregou uma conferência para ser apreciada com a humildade de quem reconhece quando está diante de domínio técnico real. Há conferências que servem para “pegar número”. A de Bernardo, não exatamente. Ela serve antes para lembrar que mágica, quando levada ao extremo, é menos uma sequência de métodos e mais uma forma de pensamento manual. O sujeito comum assiste e pensa: “quero aprender isso”. O sujeito lúcido assiste e pensa: “talvez eu devesse apenas aplaudir e voltar para casa com dignidade”.

O argentino Sebak foi um dos pontos altos das galas. Seu ato de manipulação é potente e preciso. Divulgação/Paula Andrade
Kellys, um patrimônio da mágica mineira, entrou em outra chave: a do contador de histórias. Sua conferência vale muito pela experiência acumulada, pelo humor, pela memória e pela capacidade de transformar trajetória em aprendizado. Há, evidentemente, um lado comercial, como costuma acontecer em congressos. Ao fim, surge o produto, o aparelho, a solução. Mas reduzir Kellys a isso seria injusto. Às vezes, uma história bem contada ensina mais do que um aparelho muito caro. E olha, que os dele são.
Ricardo Malerbi e Rudi Solon estrearam sua conferência sobre criação de espetáculo com mágica, um tema cada vez mais relevante e necessário em nosso meio. Suas experiências na Cia. Fundo Falso e no coletivo Oculto do Aparente foram compartilhadas com os mágicos que estão interessados em mágica teatral e, aparentemente, não são poucos.
Everton Machado, que apresentou seu método de construção de atos a partir da teoria de Ricardo Harada, talvez tenha oferecido uma das ferramentas mais importantes para o mágico brasileiro que deseja competir ou simplesmente amadurecer artisticamente. Sua proposta de passar o ato por um filtro teórico, transformando reflexão em ferramenta prática, aponta para uma necessidade urgente: menos “eu tive uma ideia genial no banho” e mais análise formal. Everton aplicou esse pensamento em sua própria trajetória e conquistou o Grand Prix da FLASOMA, o principal concurso de mágica da América Latina. Não é pouca coisa. A mágica brasileira precisa parar de tratar teoria como enfeite acadêmico e começar a entender que pensamento também ganha prêmio.
Galas: quando o teatro respira e quando pede socorro
As galas são o território mais delicado de qualquer congresso. Diferentemente das conferências e dos concursos, ali há público leigo. Ou seja, gente inocente, ainda não contaminada pelo hábito de ver mágica e sem referências. O teatro teve duas galas com 600 pessoas e uma com quase 800 espectadores, que foram encantados e assombrados, mas também torturados em alguns momentos. A mágica precisa urgente parar de conversar apenas consigo mesma e encarar o mundo.

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O momento mais emocionante veio com Kradyn Jr., organizador do evento e filho do mágico mineiro Kradyn, ao lado da filha de 3 anos. Ele recriou, com ela, o número do lenço que seu pai havia feito com ele na mesma idade. A caixinha era a mesma. E talvez aí esteja uma das mágicas mais bonitas de todo o festival: não pelo efeito, mas pelo gesto que atravessa gerações e simboliza a perpetuação de uma arte que resiste. Teve emoção geral e real.
Jeff McBride foi o ponto alto das galas. Brilhou na gala de palco e explodiu na gala clandestina, onde entregou seu ouro. Fez todos chorarem com os aros chineses que apresentou. Ainda na gala clandestina, terminou com a participação da magicista conhecida como A Mineirinha, de apenas 12 anos de idade, que roubou a cena ao fazer números de cartomagia, que deixaram mágicos experientes impressionados.
Mesmo quando algum detalhe técnico não sai como o planejado — e isso acontece até com gigantes — McBride possui algo que não se compra em feira mágica: presença em cena. Foi um privilégio ver ele errar e testemunhar como um Mestre em atividade se sai num momento de adversidade. Sua performance com o apito, em especial, mostrou por que ele é tratado com tanto respeito pela comunidade mágica internacional. Sem excesso de aparelhos, sem depender de pirotecnia vazia, ele ocupou o palco com domínio, musicalidade e uma compreensão muito rara de ritual cênico. O público percebe quando alguém não está apenas executando um número, mas habitando uma linguagem.
Everton Machado, com seu ato “Pintor do Absurdo”, atual Grandprix latino-americano, mostrou porque havia tanto hype em torno de seu nome. Prometeu tudo e entregou um pouco mais. Sua performance é acachapante e assombrosa na medida certa. O que se vê é mágica de verdade acontecendo bem diante de nossos olhos. Fez valer o ingresso.

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Outro momento memorável nas galas foi o número com dança e aros apresentado pela dupla “As Mágica”, composta por Camila Rivetti e Fabíola Rosa, únicas representantes femininas no elenco do Festival. Performaram uma releitura contemporânea sobre um dos clássicos do ilusionismo, os “Aros Chineses”, que fica entre o delicado e o potente. Já não é mais coisa tão rara vermos magicistas em cena, mas difícil ainda é ver com um nível de mágica tão elevado. Coisa fina, aplaudida de pé.
Porém, no geral, as galas foram irregulares. Algumas apresentações salvavam a noite inteira; outras pareciam testar a resiliência da plateia. Houve problemas de ritmo, microfone, escolhas equivocadas e números que talvez funcionassem melhor em outro contexto. É duro dizer, mas necessário: nem todo número que diverte mágicos em congresso sustenta uma gala em teatro. E nem todo mágico que sabe fazer efeito sabe construir ato.
A última gala, especialmente, foi complicada. A apresentação de Nicolas Neuromágico se arrastou por quase 30 minutos e evidenciou um problema recorrente em galas de mágica: a confiança excessiva em um repertório de piadas prontas que, quando não encontram resposta da plateia, passam rapidamente do humor ao constrangimento. Havia ali a tentativa de costurar o número com leveza, mas faltou filtro, timing e sobretudo escuta, essa habilidade rara de perceber quando a piada morreu antes mesmo de nascer. Fosc, por sua vez, protagonizou outro momento de vergonha alheia, tropeçando em uma escolha ainda mais delicada: chamar crianças ao palco sem controle real da situação. O número com cubos mágicos, que exigia condução precisa, virou uma pequena rebelião infantil em cena, com crianças circulando, desobedecendo marcações e expondo fragilidades do método. Em ambos os casos, o problema não foi a intenção, mas a ausência de domínio sobre o risco.
Ben Ludmer, que assumiu a função de mestre de cerimônias, costurando os números e conduzindo a noite, funcionou em alguns momentos, mas passou do ponto em outros. O MC de gala precisa ter timing, presença e senso de medida. A piada que arranca riso entre mágicos no corredor pode produzir constrangimento diante de famílias no teatro. Existe uma diferença entre temperar a noite e jogar pimenta diretamente nos olhos da plateia.
Concurso de palco, o velho duelo entre segurança e originalidade
O concurso de palco reuniu atos de magia geral e manipulação, com regulamento e pontuação padrão FLASOMA. Isso eleva o sarrafo e também aumenta a responsabilidade, tanto de quem compete, como de quem julga.
Na categoria Magia Geral, o primeiro lugar ficou com Diego Costa, do Rio de Janeiro, com seu ato inspirado no universo Harry Potter. O número tem figurino bonito, personagem identificável e uma composição visual que funciona muito bem para público leigo. Não por acaso, já havia sido apresentado no Rio de Janeiro e vencido o Concurso de Ilusionismo em 2024. O problema é justamente esse: Esse ato traz alguma novidade significativa para ser premiado duas vezes? Um concurso, em tese, deveria premiar não apenas aquilo que funciona, mas aquilo que avança.

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Por isso, chama atenção o segundo lugar do Eliel Peruca, de São Paulo. Seu ato era clássico, mas ao mesmo tempo original, cênico, bem construído. Havia limpeza de movimentos, variação musical, intenção dramática, surpresa e uma costura interna. Peruca não parecia apenas executar uma rotina; parecia atravessar uma pequena dramaturgia. Poderia ter ficado com o primeiro lugar. Não por “simpatia ao diferente”, esse vício moderno, mas porque seu trabalho oferecia mais risco artístico, mais frescor, mais autoria e, principalmente, menos confusão em cena.
O terceiro lugar ficou com o Mágico Cleyton, de Natal/RN. Um resultado correto dentro do conjunto.
Na categoria Manipulação, Vitor Miana, do Rio de Janeiro, venceu com uma rotina de bolas. Aos 18 anos, Miana demonstrou uma maturidade técnica rara. Sua apresentação não era espalhafatosa. Era focada, limpa, controlada. O tipo de ato que revela não apenas treino, mas obsessão. E manipulação, quando é boa, sempre denuncia isso: horas invisíveis de repetição condensadas em poucos minutos de aparente tranquilidade.
O segundo lugar foi para Heverton Ferreira, de Minas Gerais, também correto. Ele apresentou sua rotina de moedas e dinheiro. Já o 3º lugar ficou deserto, como se diz no vocabulário dos concursos quando nenhum ato alcança a pontuação mínima para a colocação.
Close-up e cartomagia: desertos e menção honrosa
No concurso de Close-up, os primeiros e segundos lugares ficaram desertos, e o terceiro lugar foi para João Biolchi, de Campo Grande/MS, que fez seu ato original da caneca e conseguiu sua primeira premiação em concursos. A ausência de primeiros lugares pode parecer dura para quem olha de fora, mas é um sinal importante: competir em close-up não é apenas apresentar uma sequência de bons efeitos. É preciso originalidade, clareza, construção de personagem, escolha de métodos e, sobretudo, um ato que tenha razão para existir além da soma das partes.
Hugo Zaragossa não pontuou para o terceiro lugar, mas recebeu menção honrosa do júri. É uma decisão interessante. Seu ato, centrado no café e nos processos que o envolvem, apresentou uma verdade cênica própria, uma atmosfera diferente e uma abordagem menos óbvia. Faltou lapidação em métodos e escolhas de efeitos, mas havia ali uma semente artística. E sementes, em concursos, às vezes valem mais do que vasos perfeitamente pintados.

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Em Cartomagia, novamente, primeiro e segundo lugares ficaram desertos. O terceiro lugar foi para Vitor Miana, que também havia vencido em Manipulação. Com isso, Miana se tornou o grande nome competitivo do festival. Aos 18 anos, vencer em uma categoria e ter a melhor colocação em outra é um feito que merece atenção. Ele ganhou inscrição para o Magic Festival e vaga para competir na FLASOMA do Peru, em 2027, assim como os primeiros colocados que se apresentaram na gala de encerramento.
Há algo de simbólico aí: enquanto parte da mágica brasileira ainda discute o básico, um jovem de 18 anos aparece vencendo duas frentes, mostrando que técnica, foco e ambição competitiva continuam sendo virtudes muito concretas. Anotem esse nome.
Um festival necessário, mesmo quando incomoda
O Festival Internacional de Mágica e Ilusionismo de BH cumpriu uma função importante: colocou a comunidade diante de si mesma. Mostrou excelência, mostrou fragilidades, emocionou, irritou, ensinou, premiou, gerou discordância e fez circular repertório. Um festival que não produz conversa depois que acaba talvez tenha falhado. Este, ao contrário, ainda vai render muito.

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Sua força esteve na densidade da programação, na presença internacional de Jeff McBride, no volume de conferências, na seriedade do regulamento competitivo e em momentos de emoção verdadeira, como a homenagem de Kradyn Jr. Sua fragilidade apareceu na irregularidade das galas, em algumas escolhas de atrações e em resultados que reacendem a velha pergunta: estamos premiando o melhor ato ou o ato mais seguro?
A mágica brasileira precisa de congressos assim. Precisa de competição séria, de crítica, de teoria, de palco, de plateia leiga, de conferencistas internacionais, de homenagens à memória e de jovens que cheguem sem pedir licença. Mas também precisa aprender a olhar para si com menos complacência.

