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A morte de Tamariz expôs algo que a mágica brasileira precisa resolver

Se um grande mágico brasileiro morresse hoje, o país entenderia que perdeu um artista?

A morte de Juan Tamariz impactou a todos, nessa última semana, mas particularmente, alugou um triplex na minha cabeça. A notícia de seu falecimento não ficou restrita aos círculos de ilusionistas. A imprensa espanhola tratou sua partida como uma perda cultural nacional. O jornal El País o definiu como gênio da cartomagia e mestre de gerações; a RTVE, principal emissora espanhola, recuperou sua trajetória, ouviu amigos e acompanhou a despedida da família.

Nos dias seguintes, Tamariz continuou em pauta. Entrevistas com sua filha, relatos do velório e até questões familiares, envolvendo a briga entre a viúva e os filhos, chegaram aos programas de fofoca matinais. Independentemente da abordagem, uma coisa ficou evidente: Tamariz fazia parte da memória afetiva e cultural da Espanha.

Isso me provocou uma pergunta desconfortável: se um grande mágico do Brasil morresse hoje, qual deles receberia espaço nos principais jornais e telejornais brasileiros como uma perda para a cultura nacional? A resposta talvez seja mais difícil do que gostaríamos de admitir.

Tamariz não conquistou essa dimensão apenas por sua excelência técnica. Ele também foi um fenômeno televisivo e midiático. Durante décadas, diferentes gerações cresceram vendo seu cabelo comprido, sua cartola e seu violino imaginário na TV. Programas como “Un, dos, tres…” e “Tiempo de magia” permitiram que diferentes gerações crescessem assistindo a Tamariz. A própria RTVE o apresentou como parte da história da televisão espanhola.

Ele não era conhecido apesar de ser mágico. Era conhecido justamente por ser mágico.

E quem é o mágico que é lembrado por espectadores e veículos de imprensa espontaneamente no Brasil? Infelizmente a figura do Mister M, que sequer é brasileiro. Interpretado pelo norte-americano Val Valentino e narrado por Cid Moreira, o personagem entrou definitivamente na cultura popular brasileira, sendo lembrado nacionalmente, mesmo décadas depois, como referência quando se fala de mágica. Essa ficha caiu pra mim recentemente, quando o Cid morreu e o Mister M foi citado em absolutamente todas as homenagens ao jornalista.

Desde então, nenhum mágico alcançou penetração semelhante. O Brasil possui artistas premiados, campeões internacionais e profissionais com milhares de apresentações. Alguns passaram pela televisão; outros conquistaram milhões de visualizações. Ainda assim, poucos são reconhecidos além das próprias bolhas. Em 30 anos não conseguimos fabricar um fenômeno midiático genuíno na mágica brasileira. E esse cenário fica ainda mais difícil porque a televisão que criou Mister M já não concentra a atenção de todo o país. Hoje, um artista pode ser uma celebridade em determinado nicho e permanecer completamente desconhecido fora dele. A TV já não é o canhão que era antigamente.

A pergunta inicial permanece: qual mágico brasileiro teria hoje sua morte noticiada como uma perda para a nação?

Talvez exista um nome. Talvez cada leitor tenha seu próprio palpite. Mas o desconforto não está em encontrar uma resposta individual. Está em perceber como são poucos os candidatos capazes de reunir reconhecimento artístico, presença midiática e memória popular. O desafio brasileiro não é encontrar um Tamariz. Figuras como ele são irrepetíveis. O desafio é criar condições para que nossos artistas sejam vistos, estudados e reconhecidos enquanto estão vivos.

Para que a mágica seja percebida como parte da produção cultural brasileira. E para que, quando um de seus grandes nomes partir, o país compreenda que não perdeu apenas alguém que fazia mágicas.

Perdeu um artista.

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