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Loja de mágica está fazendo o que entidades brasileiras deixaram de fazer

Bruno Iriart, dono da Mágica Mais, é o francês que serve vinho, promove conferências e movimenta a mágica brasileira.

Tem uma coisa curiosa acontecendo na Vila Mariana, em São Paulo, que diz bastante sobre o momento da mágica brasileira. Enquanto boa parte das entidades mágicas brasileiras parece respirar por aparelhos, uma loja de mágica comandada por um francês radicado no Brasil está conseguindo reunir mágicos, promover conferências presenciais, alimentar conversas importantes e, de quebra, servir vinho bom, numa casa na rua Nakaya.

A loja em questão é a Mágica Mais, ecommerce criado por Bruno Iriart, francês radicado no Brasil há muitos anos. E sim, talvez o detalhe do vinho tenha relação direta com a nacionalidade do anfitrião.

Reprodução da internet

Bruno nasceu em Bayonne, na França, e é formado em Administração pelo ISG, Institut Supérieur de Gestion. Teve aulas de mágica com Gaetan Blum e trabalhou como diretor de vendas da OID Magic, empresa francesa de brinquedos de mágica. Depois de tirar um ano sabático, veio ao Brasil e acabou se apaixonando pelo Nordeste. Foi lá que abriu, em 2005, com um sócio, a Magic Up, seu primeiro negócio por aqui, chegando a ter 15 quiosques espalhados pelo país.

Em 2018, ainda em Fortaleza, fundou a Mágica Mais. Mais tarde, por questões logísticas, decidiu mudar a operação para São Paulo. A loja foi instalada na Vila Mariana, em uma casa na Rua Nakaya, onde Bruno toca o negócio em sociedade com Bruna de Oliveira, que é também responsável pela logística da empresa.

Hoje, a Mágica Mais passou a cumprir uma função que anda rara no Brasil: ser um espaço físico de encontro para mágicos. Não apenas uma loja onde se compra baralho, gimmicks ou downloads, mas um lugar com programação presencial, oficinas, circulação de artistas e conversas que continuam depois da atividade principal.

Já passaram por lá artistas nacionais e internacionais como Gabriel Gascon, Célio Amino, Gustavo Vierini, Mr. Tango, Daba, Yago, dentre outros.

Isso não deveria ser algo tão extraordinário. Em uma cena artística minimamente organizada, clubes e associações seriam os lugares naturais para esse tipo de troca. Só que, na prática, boa parte das entidades mágicas brasileiras perdeu essa capacidade. Falta sede, falta calendário, falta sócio ativo, falta presença.

Foto: Felipe Kardman

O Círculo Brasileiro de Ilusionismo, no Rio de Janeiro, por exemplo, entidade mágica mais antiga em atividade no país, atravessa um período bastante triste: sem atividade, sem programação regular e sem sede fixa, depois de uma diretoria eleita não concluir o mandato. A AMSP, em São Paulo, ainda realiza seus shows de gala, com elencos nem sempre muito animadores, mas também não sustenta uma agenda contínua de formação, pesquisa, encontro e desenvolvimento.

Há exceções, claro. A AMAR, no Rio Grande do Sul, e da AMI, de Minas Gerais, seguem promovendo atividades com regularidade e relevância. Mas são exceções. No geral, a mágica brasileira parece depender mais de iniciativas isoladas do que de instituições organizadas.

É aí que a Mágica Mais chama atenção. Uma loja privada, criada por um empresário que nem brasileiro é, está fomentando a mágica no Brasil, oferecendo uma programação mais viva e constante do que boa parte das entidades do país, que carregam tradição no nome, mas entregam pouco no calendário.

E o detalhe que torna tudo ainda mais gostoso: as conferências da Mágica Mais costumam ter ingressos em torno de R$ 70, o que é relativamente barato. Quem já organizou qualquer evento presencial sabe que esse valor não faz cosquinha no custo total de um evento assim. Principalmente para um espaço que tem a lotação de 25 pessoas. Entre remuneração do conferencista, estrutura, recepção, comes, bebes e equipe, a conta dificilmente fecha.

Ainda assim, Bruno recebe os participantes com petiscos carinhosamente preparados por Bruna e, para surpresa de quem espera o combo triste de café morno e biscoito seco, vinho de verdade. Em uma das edições, um Cabernet Sauvignon chileno, Perez Cruz, safra 2023, ajudava a deixar claro que aquilo não estava sendo pensado apenas pela planilha. Sem falar dos queijos, pães, patês e barquetes.

Adoro Mágica/Henri Sardou

“O objetivo da Mágica Mais é fazer a mágica crescer. Vender é uma consequência”, diz Bruno. Segundo ele, o coquetel sai do próprio bolso justamente para estimular os mágicos a aparecerem, ficarem mais tempo e conversarem.

Esse ponto talvez seja mais importante do que parece. A conferência é o centro do evento, mas não é a única coisa que importa. O antes e o depois também fazem parte da experiência. É nesses momentos que surgem conversas, discordâncias, bastidores, referências, ideias, parcerias e, inevitavelmente, alguma fofoca. Em outras palavras: é ali que a cena respira.

O segredo do sucesso está também na escolha da programação. A próxima atividade de junho segue essa lógica. Na segunda-feira, 15, às 19h, a loja recebe Juan Araújo e Alejandro Muniz, a dupla Os Charlatães, para uma conferência sobre mentalismo, pensamento cênico e os mecanismos técnicos e conceituais que sustentam o trabalho dos dois.

Talvez second sight não seja o assunto mais popular entre mágicos neste momento. Também não é aquele tipo de tema que aparece no Instagram prometendo “o efeito definitivo para impressionar qualquer plateia”. E isso, sinceramente, é uma boa notícia. Nem toda conferência precisa entregar uma solução pronta para ser copiada no próximo show. Às vezes, o mais valioso é entender como outro artista organiza pensamento, método, dramaturgia e presença cênica.

Num vídeo do Instagram, Alejandro conta que ele e Juan assistiram, anos atrás, a uma conferência sobre quick change no FLASOMA 2015, no Uruguai. Eles nunca tiveram intenção de incluir quick change no repertório. Mesmo assim, saíram da experiência melhores, porque puderam entender como aqueles artistas pensavam, quais problemas enfrentavam e como transformavam a técnica em efeito.

É algo parecido que Os Charlatães pretendem fazer na casa da Vila Mariana: abrir o processo, discutir escolhas, comentar história, filosofia, técnica, estrutura e bastidores do próprio trabalho. A proposta não é apenas ensinar método, mas revelar o raciocínio.

Juan e Alejandro prometem falar sobre minúcias técnicas, decisões artísticas e pontos que normalmente não comentam em público. Segundo eles, a conferência tem hora para começar, mas não necessariamente para terminar. O que, em tempos de conteúdo mágico escasso, já soa como um ato revolucionário.

No fundo, é por isso que a iniciativa da Mágica Mais merece atenção. Não se trata apenas de uma loja fazendo um evento. Trata-se de um espaço assumindo, na prática, uma função que clubes e associações deveriam exercer com mais regularidade. A loja vende produtos, claro. Mas, ao criar encontros presenciais, também ajuda a formar cena, repertório e comunidade.

E, convenhamos, se a mágica brasileira precisa mesmo de alguma salvação, talvez ela não venha de entidades tradicionais ou shows de gala com cheiro de mofo. Talvez ela venha de lugares menores, mais vivos e mais generosos. De uma casa na Vila Madalena, de um francês teimoso e gente boa. De um vinho bom na mesa e de uma conferência que começa às 19h e termina quando a conversa acabar.

Na próxima segunda, 15, Os Charlatães estarão na Mágica Mais para falar de telepatia, mas sobretudo, de pensamento artístico. Quem for, provavelmente, não sairá apenas com um método novo na cabeça. Pode sair com algo mais raro: a lembrança de que a mágica também se constrói em torno da mesa, ouvindo outros artistas e participando de uma comunidade que ainda tem muito a ganhar quando decide sair da internet.

Reservas e informações diretamente com a loja.

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