Editorial

Nullis: “herói” da mágica prometeu revolução, mas entregou pirataria

Outro dia, vendo uma propaganda de uma série na TV, ouvi um dos personagens dizendo uma frase que não poderia ser mais clichê: “as pessoas precisam de um herói”. Foi-se o tempo em que essa frase era ouvida trazendo consigo uma sensação de esperança.

Muitos de nós crescemos tendo a figura do Super Homem como inspiração. Hoje em dia, em um mundo mais atento para problemas que antes eram ignorados, a gente já é capaz de perceber o quão grave é acreditar em quem se vende como herói. Não precisa procurar muito para encontrar uma quantidade fora do comum de condenados por crimes graves que se consideram “cidadãos de bem”, por exemplo.

Por isso, vira e mexe aparece alguém que parece estar prestes a lhe salvar de alguma coisa que esse novo herói considera errado. Essa figura mascarada ou usando um capuz chega prometendo ser o salvador que faltava na sua vida.

E você, que talvez acredite “precisar de um herói” pode acabar caindo na armadilha de também acreditar que esse “bem”, é mesmo o bem. Vá lá, bem e mal podem ser conceitos subjetivos muitas vezes, mas cá entre nós, você sabe que na maioria das vezes o cidadão de bem só está mesmo interessado no bem de si próprio.

Reprodução do Instagram

Meses atrás, a comunidade mágica brasileira foi apresentada a um desses cidadãos. Alguém que chegou cheio de panca prometendo salvar a mágica brasileira. O super herói que nos faltava.

Se você caiu de paraquedas, a essa altura deve estar pensando que esse herói só pode ser alguém respeitado, com um trabalho consolidado na área da mágica, premiado e reconhecido internacionalmente, com gabarito teórico indiscutível e técnica impecável. Afinal, um super herói só pode salvar o mundo porque tem habilidades muito superiores às do resto dos mortais.

A questão toda é que ninguém sabe

Ninguém nunca viu o tal salvador da mágica fazer um Double Lift sequer. Não se sabe nem se ele é ou não capaz de fazer um overhand shuffle melhor que um chimpanzé bem treinado.
Tudo o que se sabia dele até agora, era de que ele se escondia atrás de uma imagem de I.A. usando, veja só, uma máscara e um capuz.

O perfil Nullis.exe surgiu no instagram abusando de um linguajar chulo, ofensivo e cheio de erros de português, chamando seus seguidores de “cabaços”, enquanto se escondia atrás de uma imagem gerada por I.A..

Hoje, o perfil minúsculo conta com pouco mais de 1.000 seguidores e abusa de frases de efeito como “a mágica no Brasil parou no tempo” ou “a mágica brasileira precisa de menos preguiça mental” e promete ajudar os mágicos do Brasil a se tornarem “lendários”.

Talvez você esteja pensando que tanta soberba só signifique uma coisa: ou o tal Nullis está produzindo novas teorias, escrevendo e produzindo espetáculos artísticos acessíveis, promovendo oficinas, ou está dando conferências e workshops com materiais autorais e criativos, certo? Pois não é o caso.

Reprodução

A promessa do perfil é que ele irá salvar a mágica brasileira e transformar cabaços em mágicos lendários com pirataria. Sim, é isso mesmo que você leu. Por R$697,00 eles prometem lhe dar acesso a materiais de artistas como: Asi Wind, Dani DaOrtiz e Roberto Giobbi entre outros.

Entramos em contato com Roberto Giobbi que deixou claro nunca ter autorizado a venda de nenhum de seus materiais pelo site nullisproject.com, que é onde o perfil Nullis.exe promete entregar o acesso a esses materiais em troca de dinheiro.

O que significa que o perfil Nullis está lucrando em cima do trabalho de outra pessoa.
Talvez o cabaço tenha passado tempo demais lendo Dai Vernon e se esqueceu de ler o artigo 184 do Código Penal Brasileiro, que considera reclusão de dois a quatro anos para quem viola direitos de autor com intenção de lucrar.

É bastante simbólico que alguém que chama a mágica brasileira de preguiçosa tente lucrar justamente sem mexer um músculo na intenção de produzir o próprio conteúdo. Nosso herói salvador é o perfeito exemplo daquilo que Lobão chama de ejaculador de pênis alheio.

Reprodução

A incompetência do cabaço encapuzado também tem várias dimensões. Primeiro, ao insistir na generalização “mágica brasileira”, ele falha em reconhecer que não pode saber o que fazem e como pensam 99,99% dos mágicos daqui. Segundo, ao ignorar a história recente de mágicos brasileiros que não só atuam em eventos comerciais e em produções artísticas como produzem conteúdo reconhecido dentro e fora do Brasil. Terceiro, ao fazer bravatas infantis para dizer que sabe o que é mágica de verdade, enquanto tudo o que existe dele referente à mágica pela internet, é uma foto sua em preto e branco segurando um Ás de Ouros.

A partir daqui, esse texto é pra você Leonardo. Você é incompetente até pra esconder a própria identidade. Enquanto o Nullis era só um perfil cheio de marra no instagram, você e a sua parceira poderiam ser simplesmente ignorados. Afinal, que mal faria um super herói da mágica que mal deve saber segurar um baralho nas mãos?

Entretanto, a partir do momento em que vocês passaram a lucrar sobre o trabalho de outras pessoas, isso deixou de ser bobagem e virou um crime. E se tem uma coisa que faz mal de verdade para a mágica é perfilzinho de cabaço deixando de pagar royalties para artistas que trabalham duro para evoluir a arte mágica.

Agora sua máscara caiu para nós. Você queria ser conhecido como o sujeito que veio salvar a mágica brasileira, mas talvez seja no máximo lembrado apenas como o exemplo perfeito do que acontece quando arrogância, pirataria e covardia se encontram. Estamos apenas no começo. Sua máscara vai cair para todos.


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