Entrevista

“Não faço teatro magicado”: Alício Zimmermann defende mágica como dramaturgia no teatro musical 

Ilusionista, ator e diretor de ilusionismo, artista brasileiro assina os efeitos de “Dibuk — O Musical” e fala ao Adoro Mágica sobre a presença crescente da mágica em grandes produções cênicas.

A mágica brasileira começa a ocupar um espaço cada vez mais sofisticado dentro do teatro. Não mais como um número isolado, feito para interromper a narrativa e arrancar aplausos rápidos, mas como linguagem cênica capaz de contar história, revelar personagens, materializar emoções e ampliar o assombro do público. Um dos nomes à frente desse movimento é Alício Zimmermann, ilusionista, ator e diretor de ilusionismo, que vem construindo uma trajetória rara no cruzamento entre mágica, circo e teatro musical.

Divulgação

Aos 27 anos, Zimmermann já acumula trabalhos em produções como “Wicked Brasil”, “Matilda — O Musical”, “Evita Open Air” e, mais recentemente, “Dibuk — O Musical”, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. No espetáculo, inspirado em um dos grandes clássicos do teatro ídiche, a fusão entre drama, música ao vivo, dança, circo e ilusionismo conduz o público por uma história marcada por amor, destino, espiritualidade e a cabala.

Em conversa com o Adoro Mágica, Zimmermann explicou que sua relação com a mágica começou ainda na infância, de forma quase obsessiva. “Eu tinha 5 anos e comecei a fazer mágica, mas eu parei de fazer outras coisas. Fui uma criança absolutamente focada em mágica. Eu não brincava mais”, contou. A lembrança inicial veio de um efeito simples, visto ao vivo: o clássico “dedo que sai”. “Isso mudou minha vida”, afirmou.

O teatro entrou pouco depois, aos 7 anos. Desde então, a mágica e a atuação caminharam juntas. Na adolescência, morando em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Zimmermann estudou mágica de forma autodidata, por meio de livros, cursos por correspondência, materiais em CD-ROM e contatos pela internet. Aos 14 anos, encontrou seu primeiro grande mentor: o mágico Tabajara, artista de circo que havia trabalhado em programas de televisão e que apresentou ao jovem Alício uma visão mais estruturada de espetáculo.

“Ele foi meu primeiro mestre, meu primeiro mentor no sentido de estruturação de show, de repertório, de aparatos”, relembrou. A casa de Tabajara, segundo Zimmermann, era quase um museu de mágica. Foi também por meio dele que Alício conheceu o Circo Tihany, que mais tarde se tornaria uma de suas grandes metas profissionais.

LEIA TAMBÉM: MORRE, AOS 88 ANOS, TABAJARA, NOME HISTÓRICO DO CIRCO E DA MÁGICA EM CAMPO GRANDE

Aos 18 anos, o ilusionista criou seu próprio ato de mágica. Com a performance, se tornou Campeão Brasileiro de Mágica, em 2018. Logo após, se consagrou campeão de Mágica de palco no Campeonato Latinoamericano ArgenMagia, na Argentina.

Reprodução da internet.

No teatro, Zimmermann também buscou formação. Embora seja graduado em Direito, sua preparação cênica passou por cursos de interpretação, canto, dança, teatro musical e, especialmente, pelo Projeto Cena 1, em São Paulo, uma imersão voltada à formação de artistas de teatro musical. “Era basicamente uma faculdade de teatro musical. Eu estudava canto coral, teoria musical, sapateado, balé, jazz, interpretação da canção”, explicou.

Essa formação múltipla foi decisiva para que a mágica entrasse em sua carreira não como um adereço, mas como parte orgânica de uma linguagem. Zimmermann conta que suas primeiras participações em musicais aconteceram como ator, cantor e bailarino. Aos poucos, os criadores começaram a perceber que aquele ator também era mágico e passaram a escrever cenas pensando nessa habilidade.

“Eu entrei nas minhas primeiras produções de teatro musical como ator, cantor e dançarino. As pessoas sabiam que eu era mágico e começaram a escrever coisas para mim”, disse. A partir daí, a direção de ilusionismo passou a se tornar uma frente cada vez mais clara de sua carreira.

O primeiro grande musical de padrão Broadway em que atuou foi “Evita Open Air”, montagem realizada no Parque Villa-Lobos, em São Paulo. A produção, dirigida por John Stefaniuk, marcou um ponto de virada. Durante o processo de audição, Zimmermann foi desafiado a inserir uma mágica em uma coreografia. “Ele fez um teste coreográfico e falou: ‘faz uma mágica’. Do nada”, contou. O improviso funcionou. Depois, a equipe criou para ele um personagem que usava a mágica como linguagem de sedução dentro da narrativa.

Alício no elenco de “Wicked Brasil”. Reprodução

Mas foi em “Wicked Brasil” que Zimmermann passou a ocupar uma função inédita no país. Além de integrar o elenco fixo, tornou-se magic captain, trabalhando em associação com o consultor norte-americano Skylar Fox. Na prática, criou e coordenou um departamento de mágica dentro do musical. “Tive a oportunidade de ser o primeiro diretor residente de mágica em teatro musical no Brasil”, afirmou.

LEIA TAMBÉM: ALICIO ZIMMERMANN É O ILUSIONISTA POR TRÁS DA MÁGICA DE ‘MATILDA’

Essa função ia muito além de entregar efeitos prontos. Zimmermann acompanhava a temporada, assistia aos números, treinava elenco, fazia manutenção técnica e respondia aos relatórios diários da produção. “Normalmente os mágicos prestam consultoria para espetáculos, entregam e o trabalho está findado. Eu criei um departamento de mágica dentro do musical”, explicou.

Em “Wicked”, a montagem brasileira teve ainda uma característica especial: não era uma réplica exata da Broadway. A equipe pôde redesenhar soluções cênicas, e o ilusionismo entrou como parte dessa nova visão. Um dos momentos mais marcantes foi a transformação do personagem Boq no Homem de Lata, que na versão brasileira acontecia ao vivo, diante do público. “O diretor falou: ‘a gente quer que essa transformação aconteça ao vivo, não que ele saia de cena’. Esse foi um dos efeitos que viralizou no mundo inteiro”, contou.

A experiência em “Matilda — O Musical” ampliou ainda mais essa relação entre mágica e dramaturgia. Segundo Zimmermann, a versão brasileira teve 14 efeitos, muitos deles executados por crianças. “Eram crianças fazendo mágica de adulto. Foi um processo muito intenso de ensaio, conexão e alinhamento dramatúrgico”, afirmou. Alguns desses efeitos, criados no Brasil, passaram a aparecer em montagens internacionais. “Coisas que foram criadas na sala da minha casa eu vi rodando em outros países. Falei: ‘isso aí é meu, que legal’.”

Momento da levitação, clímax de “Dibuk”. Divulgação

Toda essa bagagem desemboca agora em “Dibuk — O Musical”. Na montagem, Zimmermann assina a direção de ilusionismo e também integra a produção como walking cover, função em que precisa saber diversos papéis para substituir atores em caso de necessidade. “No Dibuk, eu sei 14 papéis”, revelou. “Sou um coringa do elenco.”

Mas é na direção de ilusionismo que seu pensamento artístico aparece com mais força. Para Zimmermann, a mágica não é uma ferramenta externa ao teatro. É sua forma principal de expressão. “A mágica é a minha primeira manifestação artística. Ela não é uma ferramenta. É a forma com que eu sei me expressar artisticamente”, afirmou.

Essa visão orienta o modo como ele trabalha em espetáculos musicais. Em “Dibuk”, cada efeito foi pensado a partir da dramaturgia, da simbologia judaica, da psicologia dos personagens e da atmosfera sobrenatural da obra. “Nada ali é gratuito. Tudo foi pensado. Numa linguagem de alucinação, de sonho, de poesia, como é que isso poderia acontecer?”, explicou.

O trabalho exigiu diálogo com todos os departamentos da produção: direção cênica, luz, figurino, cenário, visagismo, música e coreografia. Zimmermann destaca que, em teatro musical, a mágica não pode ser pensada isoladamente. “Eu não crio nada sozinho. Todos os detalhes estéticos da mágica também passam por outras pessoas”, disse.

Um dos 14 efeitos de mágica apresentados no total em “Dibuk”. Divulgação.

Essa integração chegou até a música. Em alguns momentos, os efeitos foram incorporados à partitura da orquestra. “Existem músicas no “Dibuk” que foram compostas para as minhas mágicas. Na partitura dos músicos está escrito: mágica tal, momento tal, aparição de tal coisa”, contou. Para ele, isso mostra que o ilusionismo, quando bem inserido, torna-se parte da estrutura do espetáculo.

Zimmermann defende que essa é uma tendência cada vez mais importante nas artes cênicas: a mágica como elemento dramatúrgico. “Eu não só percebo essa tendência como luto diariamente por isso”, afirmou. Ele cita nomes internacionais como Skylar Fox, Jim Steinmeyer e Chris Fisher como referências de uma escola que entende o ilusionismo para além do truque. “A mágica produz uma coisa no cérebro. O assombro é uma emoção muito diferente.”

Essa emoção, segundo ele, pode existir dentro do teatro sem competir com a narrativa. Pelo contrário: pode aprofundá-la. “Quando a gente faz mágica para teatro, não trabalha preocupado se a pessoa está pensando no segredo ou não. A coisa está tão intrínseca à dramaturgia que as pessoas entendem aquilo como parte da história”, explicou.

Ao discutir a possível tensão entre teatro e mágica, Zimmermann reconhece o debate clássico: o teatro trabalha com a suspensão da descrença, enquanto a mágica busca produzir a sensação de impossibilidade real. Mas ele acredita que as duas linguagens podem se encontrar. “Eu sinto as pessoas cada vez mais aceitando e incorporando a mágica como parte da dramaturgia. A mágica é muito grande. Ela pode ter espectros. Um desses espectros é ser parte de uma comunicação dramatúrgica.”

Reprodução da internet

A frase que melhor resume sua visão nasceu durante a própria entrevista: “Eu não faço teatro magicado. Eu faço teatro magical.”

A ideia é simples, mas poderosa. Assim como existe diferença entre teatro musicado e teatro musical — em que a música não apenas aparece, mas conta a história — Zimmermann defende que a mágica também precisa ter função narrativa. “A mágica não pode estar gratuita, jogada ou como elemento decorativo. Ela precisa estar pensada para a função que tem dentro de uma história”, afirmou. “Não é um show de mágica dentro de uma peça. É uma peça de teatro em que a mágica é um dos vetores que contam essa história.”

Essa abordagem abre uma nova possibilidade de mercado para mágicos brasileiros, embora Zimmermann reconheça que o campo ainda está em construção. “É uma coisa muito nova”, disse. “Eu não fui o primeiro consultor de mágica de teatro, mas fui a primeira pessoa a criar um departamento, uma residência.” Hoje, além de “Dibuk”, ele afirma estar envolvido em outros projetos em pré-produção.

Para quem deseja seguir esse caminho, o conselho é claro: estudar muito além da mágica. “A pessoa precisa se preparar o máximo que puder. Em teatro musical, você precisa conhecer todas as áreas possíveis: luz, coreografia, partitura, direção musical, movimentação cênica”, defendeu.

Segundo Zimmermann, o mágico que deseja trabalhar em teatro precisa aprender a falar o idioma dos outros departamentos. “As pessoas de teatro musical não estão acostumadas com mágica. Você precisa introduzir a sua parte, mas, para conseguir falar com o outro, precisa conhecer o idioma do outro.”

Divulgação/Tihany Espetacular

Além de teatro musical, o Circo Tihany também foi uma escola fundamental. Zimmermann atua como ilusionista e mestre de pista no tradicional circo, considerado o terceiro maior do mundo, embora esteja em um ano sabático para se dedicar aos projetos no Brasil. “O Tihany foi meu grande sonho enquanto mágico”, contou. “É um espetáculo estilo Broadway, um varietê, estilo Belle Époque, estilo Las Vegas. Por ter a grandeza e a mágica como protagonista, me ensinou muito artisticamente e tecnicamente.”

A trajetória de Alicio Zimmermann aponta para um caminho que a mágica brasileira ainda precisa explorar com mais profundidade: a formação do mágico como artista cênico completo. Não apenas alguém que domina métodos, aparatos e segredos, mas alguém capaz de dialogar com dramaturgia, música, corpo, luz, tempo, personagem e narrativa.

Se o teatro musical brasileiro começa a abrir espaço para a mágica, isso também exige que a mágica responda com maturidade artística. O truque, sozinho, já não basta. O efeito precisa contar algo. O assombro precisa ter função. O impossível precisa fazer parte da história.

Em “Dibuk”, essa aposta ganha forma. E, nas palavras de Zimmermann, talvez a melhor mágica seja justamente essa: fazer o público deixar de procurar o segredo e passar a viver a experiência.

“Eu acredito que a mágica deve ser consumida não procurando o segredo, mas deixando isso entrar na sua experiência e saindo assombrado da forma que deve ser”, conclui o artista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *