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Palco ou rua? O lugar onde a mágica acontece pode mudar tudo

Há muito tempo penso que a mágica tem uma potência maior quando exercida no cotidiano. Naturalmente essa teoria não tinha um respaldo muito teórico, partia de uma percepção prática da minha leitura baseada em reações e na diferença de potência em duas situações: mágica fora do ambiente profissional e a minha experiência quando comecei a trabalhar com mágica e a fazia na avenida paulista, em São Paulo, aos domingos.

Depois que comecei a atuar profissionalmente, qualquer coisa mudava quando a mágica saía do cotidiano ou da rua para as festas privadas, teatros e espaços culturais (esse último é ainda uma outra exceção da qual ainda discorrerei).

Ao longo desse percurso, residia ainda alguma dúvida na proposição “a mágica é mais forte enquanto arte de rua”, porque duas hipóteses principais poderia cercear a minha impressão: 1) em ambientes profissionais a minha postura, naturalmente, muda e algo acontece que impacta diretamente a reação; 2) a mágica é realmente mais forte em situações cotidianas (portanto, também rua).

Reprodução da internet

Entre as duas hipóteses, a segunda parecia ainda mais real, porque quando via outros mágicos se apresentando em situações não profissionais ou na rua, tinha a impressão de que a mágica deles também era mais potente. Analisando os motivos, é preciso entender os mecanismos formais de criação de sentido, em outras palavras: A criação do mistério (sentido) através da simulação do impossível (mecanismo formal).

O objetivo último da mágica é a criação de um sentimento pré-lógico no qual o espectador resulta estarrecido diante do feito, sem podê-lo explicar (assombro, como nós mágicos chamamos). Nas palavras de Arturo de Ascanio a explicação não pode caber “a socorrida explicação da habilidade manual do mágico, das suas roupas, da preparação do equipamento ou do cenário onde atua”¹.

Traçando um paralelo com a ideia do filósofo e semioticista francês Louis Marin, a roupa, o equipamento e o cenário compõem o suporte do mágico. Aqui, ainda que na performance cênica, é como pensar uma obra de arte: há um mecanismo representativo e um mecanismo presentativo, quer dizer, a arte se diz arte ao mesmo tempo que representa uma outra coisa. Sendo assim, da mesma forma que uma moldura é o suporte de um quadro, a junção de roupa, equipamento e cenário comporiam o suporte do ilusionista.

No que tange figurino, esse suporte, é constantemente apresentado (inclusive por mim) através de figura que se tornou simbólica do mágico clássico: cartola, paletó/fraque, manga longa etc. Naturalmente porque é um mecanismo presentativo que facilita o trabalho, diz que ali tem um mágico, como uma moldura diz, ainda que escondida e integrada, que ali tem uma pintura. Ora, ao mesmo tempo diz que a roupa abre (e de fato o faz) possibilidades técnicas que diminuem, portanto, a potência mágica do assombro.

A ideia é simples: a mágica de rua (ou em situações cotidianas) oculta o suporte (exatamente o oposto do que acontece com a pintura, na qual a arte de rua integra o suporte tornando-o evidente e parte da obra de arte). Ocultar a “moldura” do mágico é extremamente vantajoso, porque exclui possibilidades de explicação do feito prodigioso do mágico. Sendo assim, a fase de comprovação (me refiro novamente à teoria ascaniana), é muito mais fácil, resultando em uma potência que normalmente é maior.

Uso aqui a palavra normalmente, porque naturalmente não é uma máxima na qual se pode afirmar que “a mágica de rua é sempre mais potente”, embora o mesmo feito em um teatro e na rua, terá, provavelmente, mais potência na rua. Exemplificando: eu não preciso comprovar a não existência de truques na mesa que estou usando se for uma mesa de bar, ou a mesa da sala de jantar de uma amiga.

Portanto, repito, o mesmo número de mágica feito no teatro e na rua, provavelmente terá mais potência – um assombro mais forte – na segunda situação. Basta pensar na levitação: um objeto flutuando terá mais potência em uma situação com controle absoluto de luz com toda a possibilidade de montagem antes do começo da apresentação ou em uma reunião entre amigos numa situação completamente não profissional?

Mas a problemática vai além: porque apesar da potência mágica ser maior na rua ou em situações cotidianas, o teatro abre portas para um mecanismo estético mais enriquecedor, ou seja, ultrapassar o assombro e agregar outras atmosferas criativas. Isso também equivale a dizer que as situações profissionais privadas são as que o ilusionismo tem menos potência: a rua e o cotidiano aumentam a possibilidade de um assombro mais forte, o teatro abre portas estéticas, um evento privado nem um, nem outro.

Cabe ainda pensar numa terceira situação: as intervenções. É muito interessante a ideia de ser atravessado em um espaço cultural por um mágico do qual não se esperava. Também aqui, toda a possibilidade de montagem antes da apresentação e a roupa são suportes que causam dúvida, exigindo, no mínimo, uma fase de comprovação mais refinada. Porém é um meio do caminho: possibilidade estética mais potente que na rua ou em situações cotidianas ao mesmo tempo que o suporte fica mais oculto pelo efeito surpresa não planejado intrínseco ao teatro no instante da aquisição do ingresso.

Enquanto no teatro se sabe que horário começará e a postura é “estou aqui para ver um mágico”, toda a intencionalidade diz que o ambiente é já preparado para os feitos prodigiosos do ilusionista. Na intervenção, o efeito surpresa diminui o suporte, resultando, geralmente, em mais potência mágica. Na rua ou em situações cotidianas, o suporte quase não existe, resultando em potência mágica, mas ao mesmo tempo, limitando o campo estético da criação de algo mais conceitual.

1: La Magia de Ascanio, em resposta a uma entrevista feita com Juan Tamariz. Tradução minha.

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