Dedicado a Cristóbal Jeria¹
Segundo Ricardo Harada, conforme abordei algumas vezes já nesta coluna, mas principalmente no artigo Diálogos sobre a originalidade: uma perspectiva marxista sobre a revelação de mágica no qual eu retomo a teoria haradiana dizendo que a poética – no sentido estrito de poiesis, ou seja, aquilo que compõe a forma do ilusionismo – é composta de três instâncias
“paralelas, indissociáveis e, ao mesmo tempo, distintas. A primeira dimensão é relativa ao percebido ou aquilo que o espectador lê, interpreta e absorve; a segunda dimensão diz respeito ao não percebido, ou seja, todas as causas imperceptíveis à testemunha do fenômeno; por último, a recriação do acontecimento mágico na memória do espectador. Em outras palavras, a mágica se divide em três universos: o visível, o invisível e a reminiscência.”²
Quando se pensa em forma, pensa-se também em conteúdo. Ou seja, a partir da teoria daquilo que Harada chama de poiesis, eu aferi dentro de uma lógica semiótica que as três instâncias citadas acima estariam relacionadas às ideia de forma e conteúdo – significante e significado. Depois de ver o vídeo de Cristóbal Jeria, já mencionado na nota 1, percebi que poderia aprofundar a questão a partir das ideias saussurianas. Sendo assim, é necessário desdobrar algumas questões acerca de cada um desses pontos. Aos que não conhecem nem um pouco da ideia de significante e significado, o vídeo de Cristóbal a explica muito bem. Caso a barreira linguística do espanhol seja um problema, há um capítulo específico sobre isso no livro Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure (Natureza do Signo Linguístico), amplamente editado aqui no Brasil. De toda forma, uma pequena definição seria que o significante é a maneira como a coisa é transmitida (forma) e o significado é o conceito da coisa (conteúdo). Sussurre analisa isso a partir da língua, sendo assim, o significante seria a imagem acústica da palavra, o conjunto de sons que formam aquilo que você diz, enquanto o significado é o conceito. Assim a imagem acústica (significante) “carro” tem o significado “veículo motorizado sobre quatro rodas”. Naturalmente que aqui está simplificado, pois segundo Saussure a língua não é um sistema de nomes, o que equivale a dizer, que o conceito é o significado do conjunto de coisas da imagem acústica em questão (no exemplo, carro).
Sendo assim, a poiesis da mágica é o conjunto de coisas que torna capaz de atribuir um significante que gera diferentes significados. O visível, aquilo que se vê, seria parte do significante da mágica como o efeito proposto, o que geraria significados possíveis aos espectadores a partir do mágico, espécie de enunciador – verbal ou não verbal – do mistério. O invisível é aquilo que o espectador não vê, mas ao mesmo tempo compõe o todo da mágica, no artigo citado acima de minha autoria, já abordei a contradição que é parte da riqueza da construção formal (ou seja, do significante) da mágica ter como princípio não poder ser percebida. A última instância é praticamente única do ilusionismo. A reminiscência é como aquilo que o mágico fez é lembrado. Já é sabido que, normalmente, um efeito é mais potente na memória do que a maneira como ele foi realizado. É único na mágica, porque em geral a memória prega peças em tudo, uma vez que a sensação causada, seja por um quadro, uma escultura ou um livro, impacta a memória. A diferença é que na mágica isso faz parte do princípio formal de composição, uma vez que os ilusionistas estudam métodos para um efeito agir posteriormente na memória do espectador. Tudo isso junto gera a amplidão de significados possíveis que, para efeitos de simplificação, podemos chamar de efeito. Sendo assim, a junção de realidade interna, realidade externa e reminiscência é o significante da mágica, tal qual o efeito é o significado, gerando juntos o signo mágico.
Naturalmente que aqui, ao fazer uma análise semiótica de como a mágica funciona, estou isolando as coisas. Como o Cristóbal coloca, um signo – junção de significante e significado – isolado não cria, exatamente, um significado completo, ao menos não na prática. Mas a junção deles é que vai criar as diversas camadas de conceitos possíveis. O que equivale a dizer que um conjunto de signos formam outro signo maior. Sendo assim, os signos “carro” e “azul” tem seus significados, mas a junção deles “carro azul” forma um outro. Assim é a performance, ao mesmo tempo que essas três instâncias da poiesis da mágica formam o significante da mágica gerando o efeito que é seu significado, o signo performance é formado ainda de outras junções de signos: os gestos que o mágico faz, o que o artista fala etc. Mas é a partir deste isolamento, baseado no que o Saussure faz com os signos lexicais isolados, podemos ver um mecanismo de como a mágica gera os seus diversos sentidos, entendendo, também, os mecanismos formais de como o ilusionismo se realiza.
Outro desdobramento é necessário para esclarecer a ideia apresentada neste texto: a arbitrariedade do signo. Da mesma forma que o conjunto de fonemas que gera a imagem acústica “carro” não tem nenhuma relação direta com seu conceito “veículo motorizado sobre quatro rodas” – tornando relação entre significado e significante, portanto, arbitrária – o signo da mágica também é arbitrário. A realidade interna tem uma arbitrariedade em relação ao efeito (significado), e mesmo sobre a realidade externa. Por exemplo, se o invisível é um double lift, isso pode gerar uma carta que muda de cor; mas pode também gerar uma carta que sobe para o topo do baralho. Naturalmente que muda-se junto, a instância do visível. No primeiro caso, o visível é, para título de exemplo: mostra uma carta, depois a vira para baixo, coloca a carta na mesa, passe mágico, mostra que ela mudou de cor. No segundo caso, o visível é: mostra uma carta, depois a vira para baixo, coloca ela na mesa, coloca o baralho em cima, passe mágico. mostra que ela subiu para o topo do baralho. Neste exemplo, portanto, adicionando uma etapa no plano do visível, muda-se o significado (efeito). Tudo isso ainda continua a ser construído pelo espectador por meio da reminiscência, transformando, mais uma vez, o significado (efeito). O desdobramento semiótico pode ir além: talvez a instância do visível funcione como o significado da instância do invisível. Mas por sua vez, o visível é ainda significante do efeito. Isso porque, no segundo exemplo acima, a carta que sobe para o topo do baralho, tendo uma mesma realidade interna e externa, pode ter um efeito diferente, a depender da ficção proposta: voltar no tempo é diferente de uma carta que se teletransporta de baixo para cima do baralho, que por sua vez é ainda diferente de uma carta capaz de atravessar todas as outras e ir parar no topo do baralho. Portanto, é arbitrário o plano do invisível, porque não tem nenhuma relação direta com o plano do visível (o double lift não tem relação com mostrar a carta, colocá-la na mesa e colocar o baralho em cima). Da mesma forma, é arbitrário o processo todo com o efeito proposto que pode ser penetração, teletransporte ou viagem no tempo. Posteriormente, a reminiscência atua como uma força significante que ainda reconstrói a maneira como a realidade externa foi vista, mudando o significado – o efeito.
Ou seja, o invisível é significante do visível. E é justamente a instância do visível que impacta na maneira como a reminiscência vai agir. O que equivale a dizer que o visível é significante da reminiscência. Juntos, pois são inclusive indissociáveis, conforme fala Harada, eles são o significante da mágica, enquanto o efeito é o significado. Todavia, forma é indissociável de conteúdo, o que equivale a dizer que a junção de significantes são as escolhas artísticas que impactam diretamente no significado da arte. É primordial olhar para a forma para construir o conteúdo, pois, dialeticamente falando, forma é conteúdo e conteúdo é forma. Sendo assim, apesar dessa enorme dissecação semiótica da arte mágica, ambos – significado e significante – são indissociáveis, embora de relação arbitrária. O signo pode ser dissecado a muitas instâncias mínimas que ajudam a olhar para o sentido da coisa (nesse caso o ilusionismo), mas ao mesmo tempo, a junção de vários signos gera uma totalidade que é também, por sua vez, um signo. Na mágica, essa totalidade pode ser um ato, um espetáculo, uma rotina, um único efeito. Indissociavelmente tudo isso gera os sentidos possíveis da arte, cujo fim principal, mas nem sempre o único, é o mistério.
1: Mágico e estudante de psicologia Chileno, a ideia deste texto surgiu a partir do vídeo que ele fez abordando a mágica a partir de teorias lacanianas, saussurianas e fazendo uma comparação com a teoria de Gabi Parreiras. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2R02DQQ_weE
2: HARADA, Ricardo Godoy. A tentativa do impossível: a arte mágica como matéria poética da cena teatral. p. 110 Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, Campinas, SP. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1618657. Acesso em: 28 jan. 2026.

