Artigo

Sobre as polêmicas que o Adoro Mágica causou este ano

Quando comecei esta coluna, ela era completamente independente. Quando combinamos que eu participaria, a única coisa que eu não teria controle eram os títulos. O texto era totalmente de minha autoria. Não refletia em nada a opinião do site, tal como a do site não refletia em nada o meu pensamento. Mas não demorou muito para começarmos a nos influenciar. O meu modo de pensar entrou na equipe e o modo de pensar deles entraram na minha coluna. Vale ressaltar que não totalmente, eu ainda emito opiniões só minhas, como eles também emitem opiniões que não estou de acordo. É importante aqui a palavra “influenciar”, porque isso significa que, como um time, discutimos as coisas, nos influenciamos, mas mantemos a individualidade de cada um. Em alguns momentos, a opinião é comum a todos, em outros, não é. Isso gerou várias críticas que ouvi de amigos: “o site é um Frankenstein”; “não tem público alvo”; “qual o sentido de falar mal das coisas?”.

Eu não sei dizer qual era o impacto do site antes de eu assumir esta coluna. Estava há um ano fora do instagram em um período sabático da mágica, parafraseando Drummond, quis ir para a ilha, da qual é possível ver o continente à distância. Quando voltei, tinha o anseio de praticar uma crítica no viés estético da mágica, pois estudo letras, curso no qual aprendemos a ver a literatura no viés da estética. Quando digo estética, digo do ponto de vista filosófico, ou seja, analisar formalmente uma manifestação, de modo crítico-analítico. Desde então nós do Adoro Mágica enfrentamos algumas polêmicas, talvez porque a comunidade mágica não estivesse esperando um colega de profissão que falasse abertamente mal de espetáculos dos seus companheiros de ofício, talvez porque não soubemos comunicar. Vale ressaltar que a intenção não é falar necessariamente mal, fiz críticas elogiosas a Ricardo Malerbi, Caíque Tostes, Rapha Santacruz e outros. O objetivo deste texto é explicar a minha intenção que só talvez reflita mínima e parcialmente a das outras pessoas que aqui escrevem, pois como disse, ainda tenho a liberdade de emitir aquilo que penso.

Tudo começou quando eu encontrei o Everton Machado, poucos dias depois dele ter ganhado o Grand Prix laino-americano, fato que me deixou muito contente. Sempre torci pelos brasileiros no flasoma, mas com o Everton o gosto era diferente, eu ansiava pela vitória de um amigo. Naturalmente ele que acabava de ganhar o maior prêmio de mágica da América Latina estava chacoalhado e cheio de ideias. Foi quando eu disse das minhas pretensões de começar a fazer análises estéticas de espetáculos e textos teóricos desse mesmo viés, sobretudo sobre a mágica brasileira. Ele falou do blog, o qual eu não tinha nenhum conhecimento. Alguns dias depois Henri Sardou me mandou mensagem perguntando se eu queria mesmo. Acertamos as condições: eu não serei um crítico bonzinho nem cederei por marketing a nenhum espetáculo que queira falar mal ou bem. Ele disse que tudo bem, poderia até usar um pseudônimo se quisesse (coisa que não fiz), que apenas os títulos ficariam a cargo deles. Negócio fechado, é o começo da minha coluna.

Quando comecei, mandava meus textos sobretudo para o Gomieri, que me disse que sentia falta de escrever sobre mágica. Disse para ele falar com Henri. Foi então o começo da coluna dele. Desde então, naturalmente, acompanhei todo o movimento do Adoro Mágica de perto. Foi então que as polêmicas começaram para mim. Repito: se houve antes, eu não acompanhei.

A primeira das polêmicas que me lembro foi um erro de comunicação. Motivo de piada interna até hoje, quando o Biolchi escreveu elogiosamente sobre o número de teletransporte de Henry e Klauss. Não reflete a opinião da equipe, muito menos a minha. O direcionamento era relatar de maneira neutra, já que as críticas mais duras haviam apenas começado e ficavam a meu cargo. Ninguém, nem mesmo Biolchi, concorda que esse teletransporte foi bom: tosco é o adjetivo que eu usaria. Mas foi falha de comunicação, o Adoro Mágica ainda tinha um outro modus operandi, muito mais aliado ao marketing e a publicidade do que agora, ainda que atualmente também esteja ligado a esses ideais.

Depois a minha crítica dura sobre o Ilusões, que disse ser um cartão de visitas mal diagramado. Disse que não tinha controle sobre o título, mas sempre sugiro alguns, esse foi acatado e o título é meu. Como já havia escrito elogiosamente sobre Num Passe de Música de Ricardo Malerbi, alguns compararam, pois na experiência pessoal haviam gostado mais do espetáculo de Louchard que do segundo. Não sei dizer o quão isso reflete a opinião geral da equipe, mas para mim era o começo de algo. A análise crítica visa agitar o pensamento. A ideia não é gerar concordância, mas sim reflexão. Julguei que minha intenção estava começando a se concretizar, mas hoje discordo disso. Pois o rebuliço afastou a ideia principal: quando critico, a ideia é expôr um conceito estético-mágico sobre um produto, mas o julgamento de valores é que tem ultrapassado, sem que as pessoas de fato tentem entender o pensamento por trás daquilo que escrevo. Tenho a impressão que a maioria para no título ao invés de ler e tentar entender a ideia por trás. O que quero dizer aqui é que você pode discordar e achar que foi bom, mas ao mesmo tempo pode entender toda a teoria estética que aplico por trás possivelmente enriquecendo o teu repertório intelectual sobre mágica.

Uma outra polêmica que surgiu foi quando Henri Sardou escreveu que a mágica brasileira deveria agradecer Felipe Barbieri. Talvez também o tipo de coisa que leva alguns a considerar que este site é um Frankenstein, uma vez que eu mesmo já falei mal dele direta e indiretamente nesta coluna. Entendam: quando há assinatura – como minha coluna – não reflete necessariamente a opinião de todos que contribuem para o site. Concordo que isso faz o site não ter exatamente um público alvo, mas depois de refletir, discordo que isso é ruim. Em um mundo no qual a intolerância tem sido um dos vetores que o move, Adoro Mágica atua contrariamente a isso. Neste sentido que o site passou a influenciar a minha coluna, tenho aversão a tudo que Felipe Barbieri representa, mas estou aqui, em um site que constantemente o elogia ao mesmo tempo que me permite criticar. Aqui acredito poder falar por todos que participam deste site: Somos a favor do tensionamento de ideias, da provocação de reflexão. Não queremos resolver os conflitos, mas sim expô-los. Repito propositalmente: o mundo é intolerante, nós tentamos não ser. Internamente discutimos, tiramos sarro um do outro, mas sempre permitimos o espaço do livre pensar, ainda que isso faça do site um Frankenstein. Atuamos na forma dos contrários, estamos juntos em um espaço que nos permite expôr o pensamento da maneira que preferimos. Mesmo os títulos que não tenho controle, se peço para manter, é mantido.

A última polêmica que quero comentar é a que Guilherme Gomieri escreveu sobre o show que, carinhosa e ironicamente, nomeio de Barbieri e uns outros caras internacionais quaisquer. Em privado, disse para o autor que nem preciso ter visto o show para entender o erro da crítica. Ela pega leve com Barbieri, ainda que sem ser elogiosa, e pesado com Daniel Prado. Toda crítica é ideológica na minha opinião e há algo de muito estranho nesta. O principal ponto é que além de tudo ela é mal escrita. Esse comentário sobre a redação de Gomieri foi ótimo, pois aos poucos estamos refinando o sistema de revisão deste site. Claro que tudo demora, estamos aprendendo, tentando criar um espaço de livre pensar que de fato contribua com a mágica brasileira. Um espaço de notícia, opinião, crítica e teoria. Neste sentido, sempre estaremos abertos às críticas dos nossos leitores e visamos melhorar constantemente.

A ideia aqui não é se justificar nem explicar nada. Apenas demonstrar a minha forma pessoal de pensar e o porquê de eu continuar neste site como plataforma para minha coluna, mesmo discordando de diversas posições. O tensionamento é, na minha opinião, um dos grandes recursos que podemos utilizar para o pensamento. Atuamos na política dos contrários, me inspiro em Pasolini, Marx e diversos críticos literários. A minha intenção é trazer uma forma de pensamento para a mágica. Se é positivo ou não, nunca saberei, a ideia não é salvar a mágica, mas sim provocar a reflexão para o público que for. Não tem alvo, trata-se de colocar minhas ideias para o mundo e ver o que isso provoca.

Para concluir, acho que a polêmica atua em duas esferas: ela provoca a reflexão, o que ao meu ver é um fato extremamente positivo. Ao mesmo tempo, ela ofusca a linha de pensamento do autor em questão, pois muitas vezes ao focar na indignação, a pessoa não entende que tem uma formulação teórica por trás daquilo que ela lê. Se ela buscar entender o argumento textual em jogo, mesmo discordando, talvez rumine um novo tipo de ideia positiva ao leitor. É na discordância que a razão se monta, pois defendo acima de tudo a diversidade e não a universalidade. Aqui reside a principal intenção desta coluna: multiplicidade de pensamentos, se você ler e discordar de mim, isso significa produção de reflexão, o objetivo está sendo atingido. E isto acho que nós do Adoro Mágica temos em comum, pois se gera polêmica, gera pensamento, se gera pensamento, gera reflexão, se gera reflexão, nosso objetivo, acredito, está sendo atingido. Repito, esta é a minha opinião e não reflete necessariamente a da equipe: Adoro Mágica é um espaço do livre pensar sobre mágica.

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