Gostaria de expôr, muito propositalmente nesta semana de eleição, um caso que quando descobri (exatamente ontem) considerei de cara um possível escândalo editorial do mundo da mágica. Destaco a palavra escândalo, pois a uso em um sentido não tão convencional: para ser um escândalo, deve ter alcance, aqui parece que não houve de fato um um barulho com grande alcance, mas é inevitável pensar na curiosidade que é uma mudança editorial.
Eric Mason é um mágico descrito como virtuoso. Pintor, violinista, publicitário (depois largou a carreira de publicidade para virar pintor em período integral). Em 1983 publicou o livro Stuff, uma coletânea de criações originais, a maioria de mágica com cartas. Acontece que além das criações de Mason, o livro continha um ensaio de sete páginas com duas colunas de texto cada página (totalizando mais ou menos quatorze se fossem páginas únicas) intitulado The Creation of a Magical Effect.

Reprodução da internet
O artigo em questão é uma análise antropológico-social que desemboca para uma explicação das mazelas do capitalismo, dando por fim o que o autor considera a única solução: o socialismo. Aqui reside o escândalo editorial, quando o livro foi reimpresso por Martin Breese, a primeira coisa que se lê no preface to second edition é que um número significativo das ilustrações originais não foram reproduzidas bem na reimpressão e, consequentemente, não foram incluídas (quando se trata de um pintor). Além disso, o prefácio da segunda edição nos diz que não foi incluído o ensaio (“the section”) The Creation of a Magical Effect, que seria sobre a história da mágica entrelaçada (interwoven) com uma discussão sobre O Movimento Socialista.
Depois, na edição de Chris Wasshuber – criador do site Lybrary, que vende PDFs de livros de mágica -, o ensaio foi recolocado com a seguinte mensagem, a qual coloco integralmente e traduzo:
| This chapter was removed in the second edition published by Martin Breese, because it is a socialist rant out of place in a magic book. However, I have added it back, purely for historical reasons.Criss Wasshuber | Este capítulo foi removido da segunda edição, publicada por Martin Breese, por se tratar de um discurso retórico socialista deslocado em um livro de mágica. No entanto, decidi incluí-lo novamente, exclusivamente por razões históricas.Criss Wasshuber |
É curioso que o Wasshuber diga que o artigo foi removido porque “it is a socialist rant out of place in a magic book”, mas ao menos ele fez o papel editorial correto de manter o capítulo, enquanto Martin Breese optou por removê-lo. Quanto a este ponto, cabe a análise, se trata de uma estratégia puramente retórica como propaganda socialista ou a mágica realmente tem alguma relação com o que ele escreve?
É fato: o artigo é uma propaganda socialista, mas isso não significa que não tenha relação com a mágica. Isso também não quer dizer que a validade teórica do artigo seja anulada. Pensem bem, uma propaganda de quatorze páginas não é mera propaganda, é um aparato teórico (ou no mínimo artístico). Mason faz uma análise da origem da mágica dentro de um pressuposto antropológico para afirmar, inicialmente, que o surgimento das religiões tem uma razão material (aqui ele mostra saber muito bem o que significa o materialismo histórico-dialético de Karl Marx, embora não use o termo). Sendo assim, desemboca para um artigo que explica a origem do capitalismo. A mágica, segundo Mason, é uma arte desviadora de atenção (A misdirectional art) cuja potência é demonstrar todo o conhecimento de sociedades pré-capitalistas que nós não temos.

Reprodução da internet
Mason se equivale da mágica para explicar que as sociedades pré-civilização não são privadas de conhecimento, pelo contrário, podemos aprender com elas uma forma de vida não capitalista. Como ele mesmo diz, a civilização levou a uma sociedade de desigualdade, destruição do meio-ambiente e a criação de bombas atômicas. Depois vai defender que não se trata do retorno a um socialismo primitivo, mas justamente é o desenvolvimento tecnológico que permitirá uma sociedade não capitalista. A mágica nesse sentido, além de colocar em questão toda a noção do conhecimento da sociedade moderna, é uma ferramenta que deve ajudar a combater a manipulação das massas advindas (na década de oitenta) dos bombardeamentos midiáticos da televisão e da rádio. É curioso que na década de oitenta Mason aborde já a quantidade massiva de informação, sendo que no século XXI isso piorou muito com o advento das redes sociais e da inteligência artificial.
A ilusão da facilidade de acesso à informação como progresso é, na verdade, um fator emburrecedor, porque é manipulativo. Se antes para ter informação você precisava ler um livro, no desenrolar do século XX a informação passada é definida pelas emissoras televisivas, o que se intensifica com a internet. A internet te dá ainda a ilusão da pesquisa, mas o viés de confirmação é grande: o algoritmo te dá a informação que você quer ouvir. Nesse sentido, a mágica – segundo a visão de Mason – é uma forma de combater a manipulação, já que os mágicos estudam a enganação (tese, inclusive, muito parecida com a que Daniel Prado postou recentemente em seu perfil no instagram).
Foi puro acaso que este livro caiu nas minhas mãos¹, mas este acaso veio em um momento histórico muito singular. Considerando que os aspectos sócio-culturais que nos circundam influenciam os acontecimentos individuais da nossa vida, talvez não seja tão acaso assim. A extrema direita avança enquanto protestos no mundo todo respondem (Itália, França, Portugal, para citar alguns, leiam as notícias). No Brasil, como todos vocês sabem, é a reta final da eleição presidencial. Como mágicos, devemos estudar a manipulação. Sinceramente, como alguém que ganhou uma bolsa semestre passado e estudou tradução, semiótica, literatura e antropologia na Itália (conhecimentos que sempre tento trazer para o campo da mágica nesta coluna) eu queria estar como Mason: escrevendo em um livro um artigo teórico mais robusto, usando justamente a antropologia para criticar a sociedade capitalista.
Mas infelizmente ele perdeu essa luta. A manipulação cresceu, o acesso à informação ficou mais mastigado (e mais passível de ser manipulativo). E no fim, eu não estou defendendo um partido socialista, estou defendendo um partido social-democrata com uma chapa que contém pessoas de esquerda e de direita contra um mal maior. E se você é mágico, um estudioso da enganação, você deve assistir aos debates e entender quem manipula mais: um candidato que se recusa a responder perguntas e fica se esforçando puramente para viralizar na internet ou um estadista respeitado no mundo todo que melhorou todos os aspectos diplomáticos que o Brasil criou em vinte anos que esteve no poder. Mas podemos usar sim a internet para se informar, busquem fontes confiáveis e pesquisem no google (não vale a inteligência artificial, porque ela é um espelho nosso criado pelo algoritmo): Bolsonaro mandou matar Lula?; Caso Ana Clara; Abertura de sigilo Lula; Flávio Bolsonaro Milícia; Flávio Bolsonaro Vorcaro.
Se você ainda vier com um discurso anti-corrupção contra um candidato que abriu o sigilo bancário e telefônico dele e dos filhos contra um que se recusa a fazer o mesmo, sinto em dizer que você é um mau estudioso da enganação. Se você ainda preferir um candidato que ameaça a constituição democrática, sinto em dizer que você é um mal estudioso da enganação. Se você ainda acha que mágica e política não tem nada a ver, sinto em dizer que você não entende nada de como o mundo funciona. Política tem a ver com você, com o que acontece na arte. Veja o show Ilusões do Gabriel Louchard ou os shows de Henry e Klauss que ganham dinheiro público para serem realizados, veja o número de artistas que desenvolvem a mágica brasileira com dinheiro público, veja os congressos que recebem dinheiro público, todas essas ações são favorecidas em um governo social democrata e desfavorecidas em um governo de extrema direita.
Vote pela sua classe social, econômica e artística. E se você defende um político que faz propagandas estéticas claramente baseadas no fascismo, você precisa entender mais sobre a enganação. E você é um mágico, não entender sobre a enganação é uma contradição. Repito: eu queria estar como Mason falando de antropologia, desenvolvimento do capitalismo, fazendo análises críticas e semióticas sobre várias coisas, defendendo o socialismo, mas no momento só posso defender uma chapa de centro composta por pessoas que vão da esquerda ao neoliberalismo (portanto, de direita), é o que o momento histórico me permite. Domingo está nas suas mãos o destino do país, escolha sabiamente como um mágico deve escolher: escolha como um estudioso da enganação.
1: Agradeço imensamente a Juan de Araújo que me disponibilizou esta fonte, também por acaso, após ouvir sobre em um episódio do podcast Magia Estudio te habla.

