Dedicado a João Biolchi¹
É fato que, para o bem ou para mal, a comédia está inserida na mágica há muito tempo. Desde livros antigos nos quais contém propostas de roteiros até as performances atuais, é provável que a maioria dos mágicos usem o humor em suas performances, seja de palco, close-up ou qualquer outro gênero. A questão que reside é: Será que isso é benéfico para o ilusionismo enquanto arte? Seria a risada, aspecto intrínseco do humor, um obstáculo para o assombro? Este texto tenta traçar um panorama explicativo sobre esses aspectos.
No artigo Por que fazer mágica é difícil, abordei, a partir de uma citação de Arturo de Ascanio que a mágica por si busca uma sensação na qual o espectador resulta estarrecido sem poder explicar o feito do artista. Conforme o precursor da escola espanhola diz em entrevista com Juan Tamariz, a explicação do
“efeito da rotina é inesperado, brilhante e completamente incompreensível. Não cabe – especialmente – à socorrida explicação da habilidade manual do mágico, das suas roupas, da preparação do equipamento ou do cenário onde atua.”
Elucida ainda que a reação do espectador “ante o prodígio não é rir nem aplaudir, mas sim um ‘Oh!’ de assombro e incredulidade”. Sendo assim, o objetivo central da mágica enquanto arte não é o riso nem qualquer outra sensação que não o assombro, a ideia de que o espectador não pode explicar aquilo que está vendo naquele momento. Essa seria a mágica pura, o propósito principal do qual a arte do ilusionismo deve se pautar. Sem este impacto, não existe mágica.
Mas isso não significa, em hipótese alguma, que uma performance de mágica não possa causar outras sensações. A questão é em que momento isto ocorre. Se, no ponto chave de um efeito/ato/rotina, o assombro ocorrer simultâneamente à outra sensação, a mágica se enfraquece. O que equivale a dizer que é necessário uma espécie de intercalação entre assombro e outros sentimentos que o performer queira causar. Porém nem sempre a intercalação deixa de atrapalhar o objetivo central do ilusionismo.
Em Magic & Meaning, de Eugene Burger e Bob Neale, no primeiro capítulo, intitulado conversations, Burger explicita, em conversa com Victor Sansoucie, que a maior parte dos mágicos tem medo da mágica. Segundo ele, a afirmação é de Max Maven e só anos mais tarde pôde entendê-la. Ocorreu quando ele viu um vídeo de um mágico que fez um efeito muito forte no público, causando uma sensação mágica – assombro – enorme, mas em seguida contou uma “piada extremamente estúpida que imediatamente destruiu o momento, a experiência mágica que ele havia criado”. Continuando a conversa, Burger ressalta ainda, a partir de perguntas de Victor, que provavelmente isso está relacionado com uma tradição – negativa em sua visão – da arte do ilusionismo. Tal fato o leva a concluir que a afirmação de Maven (de que os mágicos têm medo da mágica) é real. Ao não suportar a própria experiência que ele havia criado, uma sensação de mistério absoluta, o mágico em questão trouxe de volta o público – segundo Eugene – para a realidade do comedy club, estragando o efeito criado.
Não se trata, vale ressaltar, de assumir a impossibilidade da junção de mágica e humor (ou mesmo da comédia e da mágica), mas sim de alertar sobre o enorme desafio que é a mistura. Eugene conclui ainda que acredita “que o humor certamente pode estar presente sem destruir a experiência mágica”, mas não é tão certo quanto à comédia, pois esta “pode facilmente transformar a experiência mágica na experiência de um quebra-cabeça”. Burger não explica no magic and meaning esta diferenciação que ele faz entre humor e comédia, mas pode-se entender que ele fala do objetivo base. Quando uma performance de mágica é inteira baseada na comédia, o artista bifurca seu objetivo querendo causar assombro e riso, muitas vezes perdendo o objetivo central do assombro e da sensação de mistério que o ilusionismo exige enquanto performance. Necessariamente, todo show de comédia visa o riso, na mesma proporção que um show de prestidigitação visa o assombro, assim o risco aqui é claro: atingir medianamente os dois – riso e assombro – ou, pior, não alcançar bem nenhum deles. Não é o caso sempre, mas é comum de acontecer. Assim, os artistas que visam a mistura de comédia e mágica, tem de antemão um desafio que, necessariamente, é dificultoso. Mas a mágica é, também, sobre superar os obstáculos do objetivo pessoal que cada um impõe à sua performance.
Como o próprio Eugene continua, a mágica está relacionada com um “trabalho interior” que tem relação com o “desenvolvimento da nossa imaginação” cuja proposta é “concretizar nossos sonhos interiores em ações no mundo exterior”. Termos, naturalmente, subjetivos e por isso difíceis de entender. Se o seu mundo interior é a comédia, mas ao mesmo tempo você é mágico, a atenção deve ser redobrada para que um não estrague o outro. Victor provoca Eugene com a afirmação de um mágico comediante de que a mágica deve entreter. Burger questiona o que é entreter, dizendo que o riso e o aplauso são só dois dos objetivos possíveis. Aqui reside, conforme o título do livro, um elemento sobre a significação. Entreter não é necessariamente fazer rir, pode ser causar medo, lágrimas, uma experiência transformadora, uma reflexão sobre os mistérios da vida (o que evidentemente iria mais na direção do que a própria mágica é enquanto arte) e qualquer outra coisa. Nesse sentido, o desafio do mágico comediante é que ele, propositalmente, se limitou em causar riso e assombro de um modo que um pode atrapalhar ao outro, renunciando às possibilidades de diversos sentimentos que uma performance de mágica pode ter ao se ligar mais ao mistério. Ainda sim, fazer arte é, necessariamente, criar limitações para aquilo que se almeja alcançar. A questão é estar sempre consciente do desafio que a mistura dos dois pode ter. Não se trata de defender que se deve escolher um caminho mais fácil, pois dos caminhos mais difíceis pode nascer uma arte potente. Trata-se, principalmente, de saber reconhecer a dificuldade da mistura entre comédia e mágica, para alcançar de modo mais artístico aquilo que se almeja.
1: Mágico e humorista, além de redator e responsável pelas postagens da grande maioria dos textos e posts do instagram do Adoro Mágica.

