A história de Andrély Corrêa e Flávia Molina, dois mágicos brasileiros radicados em Portugal, não é apenas uma narrativa bonita sobre sonho de infância, carreira internacional e amor pela arte. Ela também revela uma questão importante para quem vive de mágica: o público muda, o mercado muda e o jeito de apresentar também precisa mudar.
Em reportagem de Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa, publicada no Terra, Andrély conta que começou cedo, ainda no Rio de Janeiro, depois de ver um mágico na televisão e se encantar com aquela possibilidade de transformar o impossível em profissão. Aos 12 anos, fez seu primeiro show profissional em uma festa infantil. Décadas depois, ao lado da magicista Flávia Molina, construiu uma carreira sólida em Portugal.

Luciana Quaresma/RFI
Segundo Andrély, em cidades brasileiras existe uma demanda forte por shows teatrais e festas infantis. Já em Portugal, o casal percebe espaço para entretenimento corporativo, festas privadas e espetáculos familiares. O público português, segundo ele, também tem uma relação diferente com a experiência mágica. Enquanto no Brasil parte da plateia tende a disputar o jogo tentando descobrir o segredo, em Portugal o público parece entrar mais no pacto do encantamento.
A síntese dessa diferença aparece em duas falas importantes de Andrély: “No Brasil, o close-up é mais difícil de fazer” e, sobre Portugal, “as pessoas se encantam”. Não é uma crítica simples ao público brasileiro, mas uma pista sobre cultura de recepção. Em um lugar, a mágica pode ser recebida como desafio. No outro, como experiência a ser vivida.
Essa diferença muda tudo. Muda o ritmo da apresentação. Muda a forma de construir a interação. Muda o tipo de show que encontra mais espaço. Muda até a maneira como o artista se posiciona profissionalmente.
Andrély afirma que, em Portugal, os espetáculos de mágica têm boa resposta em várias categorias, de comédia a grandes ilusões e close-up. Para ele, “há público para todas as categorias”. Essa abertura ajuda a explicar por que o casal encontrou no país um terreno fértil para transformar a mágica em carreira sólida, com apresentações, festivais e circulação pela Europa.
A trajetória de Flávia Molina acrescenta outra camada a essa história. Magicista, Flávia vem da tradicional família circense Molina. Segundo ela, há duas versões sobre a entrada da família no circo: a de seu pai, Silvino Molina, que dizia ser a primeira geração, após fugir com o circo ainda criança; e a de seu tio, que afirmava que a ligação dos Molina com a atividade circense vinha de muito antes.
Silvino Molina, pai de Flávia, foi diretor de circo do SATED/RJ entre 1991 e 1995, e a própria Flávia também chegou a trabalhar no sindicato. Ou seja: quando Flávia sobe ao palco em Portugal, ela não carrega apenas um número de mágica. Carrega uma memória de picadeiro, família e tradição artística brasileira.

Reprodução da Internet
Ao lado de Andrély, essa bagagem se mistura a um mercado europeu que parece receber a mágica com outro tipo de escuta. O casal combina técnicas clássicas, inovações, elementos digitais, luzes e interação com o público, adaptando os formatos ao contexto de cada apresentação.
No fim, a história de Flávia e Andrély não fala só sobre brasileiros fazendo mágica em Portugal. Fala sobre como a mesma arte pode encontrar respostas diferentes dependendo do país, do público e do mercado.
No Brasil, muitas vezes o mágico precisa conquistar a plateia que quer apenas desvendar.
Em Portugal, segundo a experiência do casal, há mais espaço para uma plateia que quer se deixar levar.
E talvez esse seja um dos maiores aprendizados para qualquer artista que sonha em internacionalizar sua carreira: não basta levar o show para outro país. É preciso entender como aquele público quer viver o impossível.
Com informações do Terra

