Mágico desde 1996 e palestrante desde 2001, Eduardo Peres está de volta aos holofotes, após reposicionamento que atualiza sua identidade visual, reorganiza sua presença nas redes e reforça uma trajetória construída na interseção entre arte mágica, desenvolvimento corporativo e humor.
Em entrevista ao Adoro Mágica, Eduardo Peres relembrou o início de sua carreira, falou sobre o amadurecimento de suas palestras depois da pandemia, comentou sua relação com a manipulação e deixou um conselho direto para os mágicos que desejam entrar no mercado corporativo: “Seja ousado e seja brilhante”.
A história profissional de Eduardo começa oficialmente na Convenção Nacional de Mágicos, em 1996, organizado pela Academia Brasileira de Arte Mágica. Ainda adolescente, ele participou do show de novos talentos no Teatro Municipal de Americana. “Eu tinha 15 anos e ali foi o start da minha carreira profissional”, conta. “Logo no final desse ano já passei a fazer shows para criança, já passei a ganhar meu próprio dinheiro, pagar minha própria escola e aí começou um trabalho profissional.”
Quatro anos depois, Eduardo levaria seu trabalho a um dos palcos mais importantes da mágica mundial. Em 2000, foi premiado no FISM Lisboa, concurso promovido pela Federação Internacional das Sociedades Mágicas e considerado uma das competições mais prestigiadas do ilusionismo no mundo. A conquista, na categoria manipulação, tornou-se um marco em sua trajetória e ajudou a consolidar seu nome dentro da arte mágica.

Divulgação/Rapha Coimbra
A virada para o universo corporativo veio em 2001, quando a Sabesp o procurou para uma apresentação em uma SIPAT, a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho. O convite abriu uma possibilidade que se tornaria central em sua carreira: usar a mágica como ferramenta de comunicação empresarial. “Fui a uma reunião na Sabesp, fiz todo um acompanhamento do que é segurança no trabalho, aprendi essa sigla, SIPAT, e aí eu vislumbrei um nicho: é possível colocar comunicação de interesses de empresas no show de mágica.”
Na época, segundo Eduardo, já havia alguns artistas atuando nesse território, mas ainda eram poucos. Ele prefere não se colocar como precursor absoluto, mas reconhece seu lugar entre os primeiros nomes dessa vertente no Brasil. “Eu não sei se me nomearia como precursor, mas eu diria alguém da primeira geração. Eu posso dizer que sim.”
Para ele, transformar a mágica em palestra não é apenas uma evolução comercial da carreira do mágico. A remuneração maior, muitas vezes associada ao mercado de palestras, só se sustenta quando existe conteúdo real por trás da apresentação. “A remuneração financeira tem que ser uma consequência de um trabalho bem feito”, afirma. “Se a pessoa não tem vocação para reflexões, para inclinações intelectuais, para o estudo e essa paixão pela comunicação em assuntos de filosofia, economia, assuntos ligados à empresa, ela não deve se aventurar nisso.”
Ao mesmo tempo, Eduardo não defende um mercado fechado. Pelo contrário. Ele acredita que mais mágicos podem e devem explorar esse caminho, desde que estejam dispostos a estudar, criar discurso próprio e desenvolver uma entrega artística consistente. “Todo mundo tem algo a dizer e todos os mágicos são bem-vindos para fazer palestra”, diz. “Agora, a remuneração só vai aumentar se existir uma expertise desse mágico que se aventura nesse ambiente, uma expertise da prática intelectual.”
Essa visão também marca a forma como ele se posiciona diante de novos profissionais. Eduardo diz preferir cooperação à competição e afirma que seu papel hoje é abrir caminhos, não fechar portas. “Eu sempre tenho o trabalho de primeiro dizer em público o que eu disse no congresso: todo mundo tem algo a dizer e todos são bem-vindos nesse mercado”, afirma. “Também digo que é melhor cooperar do que competir. Não é meu concorrente, é meu potencial sócio, meu parceiro.”
Depois da pandemia, Eduardo passou por um período mais reservado. Ele conta que fez uma quarentena rígida, ficou praticamente dois anos focando mais intensamente em estudos, laboratórios de criação e pesquisas. Nos anos seguintes, teve uma atuação mais low profile. Mas esse recolhimento também trouxe reflexão e transformação. “É importante que haja períodos de resguardo para reflexão, para um trabalho mais íntimo, mais pessoal”, diz.
Agora, a nova fase chega com um trabalho de reposicionamento de comunicação. Eduardo percebeu que o mercado mudou e que as redes sociais passaram a ocupar um papel determinante na construção de imagem profissional. “Depois da pandemia, nesse pós-pandemia, eu percebi que a relação do mercado com as redes sociais mudou”, explica. “Hoje as redes sociais são determinantes para a formação de uma imagem.”
Foi nesse contexto que ele decidiu investir em um rebranding. “Contratei a Harry para fazer todo um rebranding da minha marca, um reposicionamento desde a comunicação visual até as mensagens que eu queria passar para o público aberto. Estou muito satisfeito com esse trabalho”, afirma. Para ele, o movimento representa a decisão de se relançar com uma comunicação “mais ampla” e “mais clara”, depois de um período de menor exposição.

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A “Harry” que Eduardo se refere trata-se do Estúdio Criativo Harry, comandado por Henri Sardou, que é o responsável pela criação e rebranding de marcas no segmento artístico, que já cuidou da identidade visual de mágicos e palestrantes como Wagner Messa, Silvio Nunes, Gustavo Vierini, Gabriel Louchard, dentre outros. “Nossa especialidade é cuidar de imagem e posicionamento, mas também contribuir para a criação de marcas fortes e com significado, como foi o caso do Edu”, conta Henri. “É sempre uma honra ser escolhido, mas também uma responsabilidade”, conclui Sardou.
A mudança, no entanto, não ficou restrita à identidade visual. Eduardo afirma que suas palestras também passaram por uma transformação profunda. A pandemia, segundo ele, foi um divisor de águas. “Eu diria que a minha palestra é outra depois da pandemia”, conta. “Depois de um ano e meio, quase dois anos enclausurado, foi um período em que eu estudei muito.”
Esse processo trouxe temas mais humanistas para o repertório, além dos assuntos tradicionalmente ligados ao ambiente empresarial. “Entrou muita coisa ligada a essa visão mais humanista do trabalho”, explica. “Apostei muito num formato de mais síntese: falar menos dizendo mais. Eu acho que a palestra evoluiu, ficou mais leve, com mais toques de humor.”
Hoje, Eduardo trabalha com sete temas base, mas afirma que também desenvolve palestras sob demanda. Assuntos como integração de equipes e meio ambiente, por exemplo, não estão necessariamente entre os temas estruturais, mas fazem parte de seu repertório quando há necessidade do cliente.

Divulgação/Rapha Coimbra
Sobre a presença da mágica nas palestras, Eduardo rejeita a ideia do efeito gratuito. Para ele, a mágica precisa estar a serviço do discurso. “A estrutura é de um espetáculo de mágica. Começo, meio e fim, figurino, músicas, e as mágicas são apresentadas como num show de salão”, explica. “Acontece que o argumento da mensagem que eu vou usar na palestra tem que coincidir com os efeitos mágicos.”
A mágica, nesse contexto, funciona como amplificação da mensagem. “Ela serve para ilustrar o que eu estou dizendo. Ela serve para amplificar a minha voz. Ela serve para chamar atenção, faz as pessoas rirem, se emocionarem, mas também faz as pessoas terem uma compreensão mais profunda do que eu falei.”
Além da atuação corporativa, Eduardo também relembrou sua relação com a manipulação, área que marcou seu nome na história da mágica brasileira e latino-americana. Ele reconhece a importância técnica da especialidade, mas destaca que seu foco sempre foi além da habilidade manual. “A manipulação exige um trabalho de corpo, não só de mãos”, afirma. “É um trabalho de bailado, de postura, de sincronia com a música. Existe um trabalho teatral na manipulação que as pessoas não percebem.”
Eduardo também faz questão de contextualizar sua premiação na categoria de manipulação, sem se colocar em comparação com outros artistas brasileiros premiados internacionalmente. “Eu nunca me comparo com Vic e Fabrini porque sou fã deles”, diz. “O ineditismo da minha parte se dá na categoria manipulação. E esse exame histórico de que é o único caso na América Latina, isso é verdade. E isso é uma coisa que as pessoas precisam saber, não por mim, mas pela história da mágica no Brasil.”
Para ele, o diferencial de sua manipulação não estava apenas na técnica, mas na estética e no enredo. “A minha parte técnica eu considero mediana, mas a parte da criação do enredo, aí sim a inspiração foi no Tropicalismo, nos movimentos de vanguarda, no Cinema Novo, no Teatro de Arena, no Teatro Oficina.”
Ao final da entrevista, Eduardo deixou um recado para mágicos que estão começando ou desejam migrar para o mercado de palestras. A resposta veio curta, direta e com a força de quem fala a partir de três décadas de trabalho: “Seja ousado e seja brilhante.”
Ele explica que muitos artistas acabam se sabotando por se contentarem com pouco, seja esteticamente, intelectualmente, comercialmente ou artisticamente. “A gente tem que buscar mais, a gente tem que ter mais ambição”, afirma. “Ambição de ser mais, ambição de fazer mais.”
Para Eduardo, essa ambição não se resume a dinheiro. Trata-se de postura criativa, empreendedora e artística. “Tenha uma ousadia estética, uma ousadia artística, uma ousadia de empreendedor”, conclui. “Ambição para ser mais e não só para ter mais.”
A nova fase de Eduardo Peres, portanto, não é apenas uma troca de marca ou uma atualização de linguagem. É o retrato de um artista que atravessou diferentes momentos da mágica brasileira, consolidou uma assinatura própria no mercado corporativo e agora reposiciona sua comunicação sem abrir mão daquilo que sempre sustentou seu trabalho: estudo, presença cênica, humor e pensamento crítico.

