Crítica

O Mergulho Mágico de Gutto Thomaz: um espetáculo que combina diferentes linguagens

No último sábado, 12, durante a mostra Ledo Engano no Sesc Sorocaba, aconteceu o espetáculo O Mergulho Mágico, de Gutto Thomaz. Assisti-lo em cena deixa de antemão uma coisa muito evidente: estamos diante de um grande artista. Em outras palavras, um excelente mágico que domina bem outras linguagens cênicas atreladas ao circo. Contudo, nem de perto o resultado é algo tipicamente circense. A miscelânea de formas é tipicamente contemporânea, na mágica não poderia ser diferente, o movimento daquilo que é mais relevante nos últimos vinte anos parece sempre caminhar para uma mistura de elementos que, quando minima, acontece no conceito – em termos semióticos no plano do conteúdo -, quando realmente efetiva, a mistura de elementos é na linguagem em si – em termos semióticos no plano da expressão. É nessa direção que parece arriscar Gutto Thomaz e, como todo risco, isso acarreta consequências – na visão deste que escreve, absolutamente positivas.

LEIA TAMBÉM: “LEDO ENGANO”, DO SESC, JÁ É UM DOS MAIORES ACERTOS DA MÁGICA BRASILEIRA

O protagonista é um mágico típico com o objetivo comum do mágico: tornar possível o impossível. Tal objetivo é oximórico, uma contradição na qual de antemão está dada a não possibilidade de sua realização plena. O objetivo do mágico, portanto, é uma cadeia de antítese: tornar possível o impossível é por sua vez uma impossibilidade que o mágico trabalha, por meio da ilusão, para tornar possível, o que gera um nó num paradoxo eterno do ponto de vista da linguagem. Podemos chamar, no espetáculo O Mergulho Mágico, esse objetivo de o desejo do mágico. É com essa dimensão que Gutto Thomaz trabalhará.

O espetáculo começa com uma sequência musicada aos moldes de mágico bem clássico, incluindo uma troca de objetos ridícula na qual o mágico sai de cena e volta com o efeito final. Para qualquer olhar minimamente atento, a primeira pequena decepção do espetáculo é essa troca mal feita, ainda que a flor (após troca óbvia) se transforme em bengala com um efeito mágico cuja decepção não é completa. Após isso, os efeitos mágicos vão escalando em níveis de impossibilidade: tomar veneno, atravessar uma porta, mergulhar em um copo de shot como se mergulha em uma piscina.

Adoro Mágica/Henri Sardou

Efeito é aquilo que é resultado da técnica na mágica – portanto, plano do conteúdo. O plano da expressão é composto por todas as técnicas – incluindo jogos psicológicos – que o prestidigitador utiliza para a simulação do impossível. Esse desejo é iminente em um mágico: flutuar um objeto, prever o futuro, aparecer, desaparecer, burlar a morte, escapar de uma situação impossível. É iminente também no personagem que Gutto Thomaz nos apresenta, mas aqui passa também pelo plano da auto ridicularização em um jogo que, aparentemente de propósito, decepciona a plateia. Tomar veneno é impossível e ele o faz, mas quem garante que é um veneno? E quem vai testar se é? Ao mesmo tempo ele o bebe no meio de um jogo já clássico no qual ao longo da história diversos mágicos se machucaram: um efeito no qual um prego é colocado embaixo de um copo, com outros três dispostos e vazios e, sem que o mágico veja de antemão onde está o prego, ele amasse todos sobrando só o copo com o prego. Aqui é com um veneno nitidamente falso, para criar também a sensação de auto-ridicularização. Não penso que seja forçar dizer que há também uma satirização do auto-engano dos mágicos ao pensar que a plateia é completamente iludida com números cujo segredo é mal trabalhado, fato bastante comum no meio. Nesse sentido, Gutto Thomaz satiriza a figura do mágico junto ao seu desejo mais interno. Ao mesmo tempo, ele é um mágico habilidoso – pode-se dizer: inclusive virtuoso. A virtuosidade da realidade interna do número se mostra em diversos momentos, para citar dois exemplos: a rotina de moeda e lenço e o desaparecimento da chave no número da porta.

Ao escalar o nível de impossibilidade, Gutto Thomaz entra no plano – já mencionado – do desejo do mágico. Aqui me equivalho do conceito psicanalítico do termo: desejo é falta, aquilo que não se realiza. Ao escalar o nível da impossibilidade, o protagonista escala o desejo e, portanto, deve se equivaler de outras linguagens para a realização dos efeitos impossíveis – em termos semióticos, para expressar o mesmo plano do conteúdo (tornar possível o impossível, objetivo oximórico), ele deve mudar o plano da expressão. Mas mudar o plano da expressão decepciona o público. Que fique claro, a decepção aqui é excelente porque é também uma grande sátira desse desejo.

O espetáculo então culmina para efeitos que o ilusionista em cena gostaria de realizar, mas não é capaz: atravessar uma porta quando nem existe uma porta em cena; beber veneno; mergulhar em um copo de shot. A cena da porta é um jogo de mímica (mudança do plano da expressão), mas ao mesmo tempo uma chave magicamente desaparece (com uma técnica de ilusionismo bastante virtuosa diga-se de passagem). Ou seja, para o efeito principal o protagonista se equivale de uma outra expressão (mímica), mas sem deixar de ser um mágico ao desaparecer a chave. Mas a decepção escala à medida que o mágico promete uma maior impossibilidade na cena final, que dá nome ao espetáculo – o mergulho mágico que, na realidade, não tem nada de mágica.

Para terminar o espetáculo, Gutto promete mergulhar em um copo minúsculo. Apresenta essa entrada clássica da palhaçaria, mas que ganha já outro ar ao apresentar um mágico com essa promessa: o que acontecerá? Ele desaparecerá? Para isso, o mágico em cena tira a roupa ficando só de sunga. Depois veste boias. E assim, vai criando cada vez mais expectativas, terminando com uma acrobacia – uma espécie de cambalhota. No fim, ele não mergulha exatamente no copo, mas para realizar esse conteúdo ele modifica – novamente – o plano da expressão – a acrobacia -, além da palhaçaria para dar conta da cena toda (a criação de expectativa). Ao terminar sem a realização do impossível, o espetáculo acaba na maior das decepções proporcionadas por Gutto Thomaz, o desejo não se realiza e, portanto, se permanece na dimensão do desejo: Tornar possível o impossível é oximórico e, portanto, impossível em si mesmo, não passa do plano do desejo. O nível psicanalítico no decorrer do espetáculo perpassa também nos temas trabalhados, a morte em tom de brincadeira é um deles. Fato inegável da humanidade, um mágico clássico, com todos os defeitos que a categoria tem, passa por uma sátira do próprio tom mórbido que os ilusionistas apresentam: austeridade, vestes pretas, ar de mistério.

É nesse sentido que a decepção que Gutto expressa é de um nível artístico muito elevado, porque é, além de tudo, desconstrução da forma. A fortuna crítica da mágica trabalhou por anos para construir métodos de como um grande clímax deve terminar uma construção mágica. Tanto no nível de efeito por efeito, quanto no nível do espetáculo, sempre é defendido o final no clímax. Mas Thomaz expressa o anti-clímax, o que me lembra os contistas que romperam com a fortuna crítica das histórias curtas escrevendo contos que acabavam em anti-clímax, tal qual Guimarães Rosa, o que Gutto Thomaz nos apresenta é o anti-clímax como clímax, mais um oxímoro para expressar um desejo oximórico. É a quebra total do plano da expressão que vem sendo construído nas últimas décadas por aqueles categorizados como os melhores mágicos da história. Mas aqui me equivalho também do fato de que conheço o artista e sei que o seu modus operandi é a intuição. Trabalhar intuitivamente é trabalhar o que foi construído também no inconsciente, daí que a expressão fica ainda mais psicanalítica. Mas tudo isso vem de um mágico muito refinado tecnicamente, o que também dá um ar de consciência do rompimento com a tradição da mágica. Em resumo: utilizar diferentes planos da expressão (portanto, plurissemiótico) para a realização de um mesmo plano do conteúdo que é o desejo do ilusionista – que por sinal decepciona porque para continuar sendo desejo deve ser falta -, esse é o ouro de O Mergulho Mágico

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *