Entre grandes ideias, execuções brilhantes, tropeços honestos e alguns números que pediam menos indulgência, o festival do Sesc Sorocaba reafirma sua importância no calendário nacional.
No último fim de semana, o Sesc Sorocaba realizou mais uma edição do Ledo Engano. Foram quatro espetáculos no teatro, uma sala especialmente adaptada para a mágica de perto, intervenções em espaços alternativos, oficina e palestra. Em quantidade, já seria um evento considerável. Em diversidade, oferece algo mais importante: um recorte bastante honesto da mágica contemporânea produzida no Brasil, com suas ambições, seus acertos e aqueles tropeços.
Chamá-lo de congresso seria impreciso. O Ledo Engano não foi concebido para a confraria dos iniciados, mas para o público em geral. É um festival, e essa distinção não é mero preciosismo vocabular. Enquanto tantos encontros do meio acabam falando para quem já conhece o segredo, o evento de Sorocaba se ocupa da relação entre a mágica e o espectador. Às vezes, essa relação é arrebatadora. Em outras, exige do público uma paciência quase tão extraordinária quanto o efeito prometido.

Adoro Mágica/Henri Sardou
“O JOGO”
Em “O Jogo”, Alejandro Muniz encarna um jogador condenado à eternidade a advertir outros jogadores sobre os perigos da aposta. A abertura, com um trecho de “O Fortuna”, de “Carmina Burana”, estabelece o território simbólico entre sorte, azar e fatalidade. A partir daí, números clássicos de mágica e mentalismo ilustram as armadilhas do jogo sem transformar o espetáculo numa palestra educativa, o que é um baita acerto.
A manipulação de fichas de pôquer funciona como um respiro e evidencia o virtuosismo de Alejandro com objetos pequenos. Nem tudo, porém, conserva o mesmo grau de acabamento. O handling do número em que ele acerta a face escolhida de uma moeda destoa da excelência do restante do trabalho. Quando o artista eleva tanto a régua, um gesto menos convincente parece maior do que é. O público pode não saber nomear o problema, mas o olho percebe antes que a razão consiga formular.
A joia do espetáculo é a versão do three shell game com cascas de nozes. O jogo das três cartas também merece destaque pela clareza e pela tensão construída. Faltou, no entanto, um desfecho à altura do percurso.
O PINTOR DO ABSURDO
Everton Machado estreou a versão expandida do ato que venceu o Grand Prix Latino-americano de 2025. Em cena, um pintor é atormentado por um gato invisível e por um ateliê que decidiu adquirir vontade própria, quase sempre com intenções pouco amistosas. Pincéis levitam, os olhos de um quadro perseguem o artista e a pintura de um violino emite uma nota a cada pincelada. Uma esfera nasce do desenho de um olho e depois retorna ao quadro, mostrado dos dois lados. É uma sucessão de imagens fortes, concebidas por alguém que entende a diferença entre apresentar um efeito e criar um universo.
Um dos melhores momentos é a dança de tango com um crânio flutuante, combinação improvável, mas que se mostra funcional. Há ainda a preparação de três tintas, misturadas em um tacho e depois separadas novamente, que carece de uma limpeza e melhor apresentação. O mesmo ocorre com o número do violino. Ambos chegam quase a irritar o espectador. No final, Everton executa o ato campeão, agora incorporado como finale do espetáculo.
É justamente aí que surge a comparação inevitável. Fica nítida a diferença entre um trabalho amadurecido durante sete anos e outro construído em menos de sete meses. A versão expandida contém ótimas ideias e imagens memoráveis, mas ainda não possui a mesma precisão, densidade e inevitabilidade do núcleo premiado.

Henri Sardou/Adoro Mágica
EXPERIMENTOS DO INVISÍVEL
Marcelo Morais realiza uma pequena façanha: apresenta cartomagia no palco, com auxílio de telão, e entrega uma experiência profundamente teatral. A tecnologia não serve como muleta nem como simples lupa para as mãos. Ela permite que a intimidade das cartas sobreviva à distância sem perder o caráter cênico.
De modo metalinguístico, o personagem narra a apresentação de um mágico antigo e alterna entre os momentos em que executa os efeitos e aqueles em que interpreta esse mágico executando-os. A voz metálica e grave, o corpo arcado, o andar manco e a composição de um homem troncho formam uma presença precisa.
A cartomagia e os números de mentalismo são apresentados de forma amável e empática. A relação com a plateia é tão bem cuidada que os espectadores se oferecem para participar com um entusiasmo que muitos artistas sonham conseguir. A trilha sonora conduz a passagem entre o presente e as lembranças do mágico, funcionando como elemento narrativo, não como papel de parede musical. Sua versão da Master Prediction beira o genial pela simplicidade da ideia e pela quebra de expectativa.
O espetáculo, entretanto, parece mais longo do que realmente é. O monólogo inicial se aproxima de dez minutos sem que mágica aconteça, e a repetição de efeitos baseados em contagens de cartas pesa um pouco sobre o ritmo, mas nada que comprometa o resultado geral que é excelente.
TRAPAÇA HONESTA
Ricardo Malerbi e Rudi Solon, da Cia Fundo Falso, conduzem o público pelo universo dos golpes e trambiques por meio de números de mentalismo. Logo no início, distribuem uma cartela para que os espectadores marquem números aleatoriamente. Ao longo da apresentação, alguns participantes são convocados como Fiscais de Inspeção e acompanham os procedimentos no palco. A solenidade do cargo, claro, é inversamente proporcional ao controle real que conseguem exercer. Eis a burocracia finalmente empregada para algo divertido.
O desfecho envolve uma obra original de Fabrini Crisci, destinada a quem completar a cartela e acertar os números de um sorteio realizado ao vivo. A integração entre os efeitos e a narrativa produz entretenimento direto, claro e eficiente. A ideia da capivara é especialmente inteligente por incorporar um elemento da cultura pop que extrapola o repertório interno da mágica e cria interesse imediato. Trapaça Honesta entende algo básico, embora nem sempre praticado: o método pode ser secreto, mas o assunto precisa pertencer ao público.

Maria Eugenia Guimarães/Sesc Sorocaba
MÁGICA VISTA DE PERTO
As apresentações de Mágica Vista de Perto aconteceram numa sala preparada para esse fim, com a plateia elevada em níveis em relação à cena, como deve ser quando mãos, cartas, moedas e pequenos objetos precisam ser vistos sem que metade do público desenvolva intimidade apenas com a nuca da fileira da frente. Cada apresentação teve quinze minutos e contou com recursos de luz e som, embora nem todos tenham escolhido usá-los.
Edu Rozendo abriu a programação com um ato infantil não falado, usando um apito e seu carisma habitual para conquistar as crianças, o que alcançou com facilidade. O contraste de seu tamanho e brutalidade, com a delicadeza, fazem as crianças se apaixonarem. Cabral também apresentou um ato infantil e estabeleceu boa comunicação, apesar de uma barriga na rotina com o raccoon. O erro era intencional, mas a princípio pareceu apenas um erro, distinção delicada que o teatro costuma cobrar com juros. A apresentação, no conjunto, foi boa.
Gui Antônio reuniu aros, produção de garrafa de cerveja e um efeito de origami no qual rasga a cabeça de um pássaro e a reconstitui, numa referência ao mágico ancestral Dedi. Encerrou com sua versão da linha partida e restaurada, usando a poesia como narrativa. A mágica é de altíssimo nível. O apuro estético, infelizmente, não comparece no mesmo nível.
Hugo Zaragoza apresentou seu ato premiado sobre café, combinando efeitos de cone e bola com uma caneca e grãos de café gigantes. A montagem do quebra-cabeça é confusa e tem pouca leitura. O final, com a produção dos grãos sob a caneca e, depois, de café líquido do mesmo recipiente, impressiona. É um excelente encerramento, mas não absolve o tédio acumulado até ali. Um clímax pode redimir muita coisa; mas não costuma ter procuração para apagar o caminho inteiro.
Guilherme Gomieri apresentou cartomagia e mentalismo. Começou com um teste de sorte, seguiu com um Fora Deste Mundo apresentado como teste de intuição e terminou com um jogo de apostas e um chair test. Thiago Pontes optou por uma apresentação clássica de mentalismo: force psicológico com previsão dentro de uma maçã, leitura de mente e uma Master Prediction num envelope que permaneceu pendurado na televisão. Os efeitos eram bons, mas faltaram estrutura e conexão. Um conjunto de números não se transforma em espetáculo apenas porque todos estão no palco no mesmo horário.

Maria Eugenia Guimarães/Sesc Sorocaba
Daniel Fazzio construiu seu ato de mentalismo a partir de objetos antigos que conferiam poderes a quem os portasse. O figurino clássico, com cartola e fraque, sustentou a atmosfera e teve a virtude de deslocar o protagonismo do mentalista para os objetos e os espectadores. A revelação final, com tudo o que havia acontecido escrito dentro do olho de um crânio visível durante toda a apresentação, foi o clímax legítimo do ato.
Fernando Ás encerrou o primeiro dia com sua maestria e cartomagia envolvente. Um dos números precisou ser reiniciado porque as instruções, complicadas, não foram compreendidas pelo espectador escolhido. Superado o contratempo, a apresentação fluiu e emocionou a plateia. Fernando conduz a cena com tranquilidade e intimidade, duas qualidades que parecem simples até se tentar sustentá-las diante de uma sala cheia.
O segundo dia:
Zattarin abriu o segundo dia com mágica para crianças numa apresentação teatral que combinou tecnologia, cultura maker e apuro estético. Houve transmissão de pensamento entre marido e mulher, um número com temática de déjà-vu e uma execução do clássico funil sem constranger o voluntário. Parece pouco, mas é raridade suficiente para merecer registro.
Gutto Thomaz apresentou bolas de esponja, corda e argola em rotinas muito bem construídas. Seu domínio de cena é incomum, equilibrando humor e virtuosismo mágico sem transformar um na desculpa do outro. Felipe Kardman voltou à mágica depois de anos afastado e mostrou que ainda está em forma. Embora não tenha apresentado material autoral, executou Carta Ambiciosa, Presto Print e uma levitação de carta com segurança.

Henri Sardou/Adoro Mágica
Flávia Dalmonte, única magicista no lineup de Mágica Vista de Perto, apresentou o desaparecimento de uma garrafa de Itubaína, bolas de esponja com transformação final em bola jumbo e um número de mentalismo com auxílio do celular. O nervosismo prejudicou a apresentação. Não apaga o repertório nem a intenção, mas interferiu no ritmo e na confiança que a cena exigia.
João Biolchi levou o ato premiado em Belo Horizonte: uma versão do Sonho do Avarento com copo, produção de moedas, transformação em moeda jumbo e desaparecimento final de todas elas. Depois veio o card to impossible location embalado pela história do alienígena Slabslab, que culminou na aparição de Gutto Thomaz, de corpo inteiro pintado de verde. O humor e o storytelling são, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do ato. Funcionam tão bem que ofuscam a lembrança dos efeitos. Ao final, o que permanece é justamente o que não era mágica, uma vitória cênica que também deveria acender um discreto sinal de alerta.
Max apresentou pela primeira vez um ato que mistura O Médico e o Monstro, gastronomia e cartomagia. A combinação parece saída de uma reunião em que ninguém teve coragem de dizer não, mas o roteiro dá unidade ao conjunto. O monstro, surpreendentemente, funcionou muito bem com as crianças e pode apontar um caminho interessante. Como se tratava de uma estreia, alguns momentos não saíram como previsto, inclusive o card stab em que Max se cortou de verdade.
Wagner Messa apresentou mentalismo clássico. Teve um problema com a primeira espectadora e contornou a situação de maneira brilhante. O book test foi fenomenal, como de costume, e o número final envolveu toda a plateia. Foi também a sessão mais lotada da sala no fim de semana, fato que não prova mérito artístico por si só, mas tampouco costuma acontecer por geração espontânea.
Alain Chaubert iniciou com uma roleta-russa de anzóis, seguiu com a previsão de uma hora num relógio e encerrou com um book test. A entrada completamente muda, já com os fios saindo da boca, tinha impacto visual, mas carecia de uma ponte para a plateia; uma simples placa poderia iniciar a interação. A previsão do relógio falhou e exigiu a repetição da parte expositiva, criando uma barriga. O book test também não funcionou com a primeira espectadora e só chegou ao resultado com o segundo participante. Cada problema, isoladamente, seria contornável. Em sequência, as quebras de ritmo reduziram a reação do público.
Além das salas
Fora do teatro, Gutto Thomaz apresentou O Mergulho Mágico, mesclando palhaçaria, mímica e mágica com humor. A parte musicada funciona muito bem. A parte falada foi prejudicada pela ausência de microfone, lembrando que nem todo mérito em cena precisa ser de natureza artística.

Henri Sardou/Adoro Mágica
Na intervenção itinerante Contém Magia, a dupla Ás Mágica, formada por Camila Rivetti e Fabíola Rosa, levou números clássicos à praça de alimentação da unidade. O festival também promoveu uma oficina de criação de roteiros com Dante Passarelli e Marcelo Moraes e uma palestra do jornalista Felipe Shikama sobre como pautar a imprensa e furar a bolha com assuntos ligados à arte.
A banca de livros de Wander Andrade funcionou como outro ponto de encontro. Havia raridades e títulos clássicos dedicados à mágica com moedas, à cartomagia e à magia geral. Entre os exemplares estavam Modern Coin, Magic and Showmanship e uma edição de Os Valetes, de Markan. Para quem entende que parte da história da mágica também sobrevive no papel, era uma pequena arqueologia editorial montada no meio do festival.
Um panorama necessário
O Ledo Engano já é um dos principais e melhores eventos de mágica do calendário brasileiro. Não por oferecer uma vitrine de perfeições prontas, mas por apresentar um panorama amplo e consistente da produção contemporânea, incluindo trabalhos maduros, experimentos em processo e estreias que ainda carregam as marcas da oficina. Um festival relevante não precisa fingir que tudo é ótimo. Precisa criar condições para que a linguagem se arrisque, encontre o público e, quando necessário, descubra em cena o que ainda não funciona.
Esse resultado nasce do trabalho formativo realizado pelo Sesc Sorocaba e do empenho dos produtores Gil Borges e Maria Eugênia Guimarães. Ao aproximar a mágica do público geral, oferecer estrutura adequada e reunir diferentes gerações e abordagens, o evento faz mais do que preencher uma programação. Ele ajuda a formar espectadores capazes de reconhecer que mágica não é apenas o efeito, destreza ou surpresa. É cena, ritmo, dramaturgia e arte.
O festival também concentra a melhor parte dos congressos de mágica: bons espetáculos e tempo de verdade na programação para que os mágicos conversem, troquem experiências e simplesmente convivam durante o evento. Parece um detalhe até lembrarmos quantos encontros conseguem encaixar dezenas de atividades e, por uma curiosa proeza de produção, não deixam tempo para encontro algum.
O nome Ledo Engano sugere um erro agradável. O festival, felizmente, é coisa séria, ainda que algumas apresentações tenham levado a expressão ao pé da letra. A única coisa que fez falta foi uma feira mágica. Ou talvez não. Sem ela, os mágicos ao menos voltaram para casa sem gastar em aparelhos destinados ao fundo de uma gaveta ou, certamente, a algum leilão futuro.

