O debate sobre a legalização dos jogos de azar voltou a ganhar força no Senado e reacendeu uma discussão antiga no Brasil: liberar ou não cassinos, bingos, jogo do bicho, videobingos, jogos online e apostas em corridas de cavalos. O projeto já foi aprovado na Câmara em 2022 e prevê, entre outros pontos, a instalação de cassinos em resorts, com limite de um por estado, embora alguns estados possam ter mais unidades por critérios de população ou território. A proposta, naturalmente, divide opiniões: há quem veja risco de vício, endividamento e impactos sociais; e há quem defenda que a proibição apenas empurra o consumidor para o mercado clandestino, sem fiscalização, sem arrecadação e sem qualquer proteção.

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Esse segundo ponto é essencial. Proibir apostas legais não acaba com o jogo. Apenas desloca a prática para operadores ilegais, onde não há verificação de identidade, restrição a menores, mecanismos de autoexclusão, limites de depósito, fiscalização ou responsabilidade. O caminho mais maduro talvez não seja fingir que o jogo desaparece com a proibição, mas regular com rigor, punir abusos e proteger consumidores vulneráveis.
Mas existe um aspecto pouco discutido nesse debate: os cassinos podem representar uma nova perspectiva para a indústria do ilusionismo no Brasil.
No mundo todo, cassinos não são apenas espaços de jogo. Eles são complexos de entretenimento. Em lugares como Las Vegas, Macau e grandes resorts internacionais, shows de mágica e ilusionismo fazem parte da programação fixa, muitas vezes em formato de residência artística. Isso permite que mágicos criem espetáculos adultos, sofisticados, com estrutura técnica, equipe, iluminação, cenografia, direção e temporadas regulares.
No Brasil, o mercado da mágica ainda é muito dependente de festas infantis, eventos corporativos, casamentos, ações promocionais e apresentações pontuais em teatros. Não por falta de talento, mas pela ausência de circuitos permanentes de entretenimento adulto voltados ao espetáculo de variedades. Sem cassinos, cabarés fortes ou casas dedicadas a esse tipo de programação, o mágico brasileiro acaba adaptando sua arte ao mercado que existe.
A legalização dos cassinos poderia mudar esse paradigma. Resorts-cassino precisam manter o público dentro da experiência: oferecem gastronomia, hospedagem, shows, vida noturna e atrações culturais. Nesse ambiente, o ilusionismo pode deixar de ser visto apenas como “atração de evento” e passar a ocupar um lugar mais nobre: o de espetáculo residente, turístico e recorrente.

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Isso abriria espaço não só para mágicos, mas também para diretores, técnicos, bailarinos, roteiristas, cenógrafos, figurinistas, produtores e artistas de variedades. Poderia surgir uma cadeia de produção cênica ligada à mágica, algo ainda raro no Brasil. Mais do que apresentações isoladas, haveria oportunidade para criar espetáculos autorais, formar plateias e profissionalizar uma linguagem que ainda luta por reconhecimento artístico no país.
É claro que a legalização, sozinha, não resolveria tudo. O setor do ilusionismo também precisaria se preparar. Cassinos exigem mais do que boa mágica: exigem espetáculo, acabamento, ritmo, visualidade, repertório e profissionalismo. Mas a existência desses espaços poderia oferecer algo que hoje falta: palcos permanentes para a mágica adulta brasileira.
A discussão sobre jogos de azar precisa ser responsável. Há riscos sociais, econômicos e ambientais que devem ser enfrentados com seriedade. Mas também há oportunidades de turismo, arrecadação, empregos, formalização e desenvolvimento cultural.
Para a mágica brasileira, a pergunta é inevitável: se o Brasil vai discutir cassinos, por que não discutir também o lugar da arte dentro deles?

