Artigo

Por que tem amador fazendo melhor que profissional na mágica?

Desde muito cedo na mágica ouvi uma frase que descobri ser atribuída a Albert Goshman (o das bolas de espuma) “Um mágico amador faz mágicas diferentes para o mesmo público e um mágico profissional é aquele que faz a mesma mágica para públicos diferentes”. Existe uma verdade nessa frase mas ela acaba por ser muito reducionista em seu pensamento. Por exemplo, seguindo-a à risca, basta que se tenha o conteúdo de um show e, efetivamente, apresentemos esse show para que tenhamos a qualidade de um profissional. Embora isso teoricamente torne alguém um profissional, não necessariamente traz qualidade. Existe uma inversão interessante dessa lógica profissional/amador quando tratamos de mágica, muitas vezes amadores tem mais qualidade em suas atuações do que profissionais. 

Explorando os motivos desse fenômeno, me lembro do caráter, muitas vezes obsessivo, dos mágicos. Penso que, talvez, os mágicos que seguem com a intenção de melhorar continuamente por vezes permanecem amadores, pois sempre exploram novas nuances e nunca definem o que vai parar em seus shows. Já os que têm o desejo de atuar, por vezes se estagnam com o primeiro show que encontram em seu processo de criação (ou cópia), pois a mágica, como já dito por Harada, é uma arte tão forte por si só que suporta até um performer ruim.

Claro que para toda generalização existem exceções e essa traz algumas. Nesse caso, bons profissionais tendem a ter um fio condutor dentro de seus espetáculos ao mesmo tempo que mantém as portas abertas em seus shows para uma melhoria contínua do que se faz. Vejo essa ação como sendo fundamental dentro da realização de um bom show: o espaço para testes. Isso mantém aquela parte da fixação por aprender e desenvolver novas mágicas promovendo uma melhoria contínua da qualidade de um show de mágica. 

Nos dias de hoje lidamos com as redes sociais e, com isso, uma possibilidade nunca antes vista, a da repetição indefinida de uma performance que postamos. Pensando no modo de produção que temos hoje, vemos um conflito, o mágico profissional tem que ter uma presença nas redes sociais de forma a criar algum portfólio digital. Isso requer uma frequência de postagem e a postagem de conteúdo repetido não tem um impacto positivo, a lógica de Al Goshman então se inverte?

A verdade é que não necessariamente. O foco das postagens varia entre a reação das pessoas e a mágica em si. Quando os vídeos têm o enfoque na reação dos espectadores, a repetição ou não de um efeito pouco importa. Quando o enfoque é o mágico interagindo com o espectador por meio da câmera, aí sim temos uma relevância na variação do efeito mágico, embora essa variância não requeira que todo vídeo desse tipo seja exclusivo, eles têm que estar somente separados temporalmente se forem efeitos ou temas repetidos. 

Ao entender isso, vejo dois impactos sobre a prática de mágica. No primeiro caso, vídeos focados em reação, é necessário ter uma estrutura maior, com um acompanhante que vá gravar o vídeo e as reações para você. No segundo caso é necessário ter um repertório maior que seja voltado para as formas específicas de interação que podem ocorrer nos vídeos. 

Podemos dizer então que os requerimentos impostos pela era de redes sociais que vivemos tornaram os vídeos mais bem pensados e estruturados? Infelizmente não, a verdade é que vemos um fluxo gigantesco de conteúdo digital nas redes sociais, mas poucos trazem alguma qualidade e promovem de fato a mágica enquanto arte. O que nos aparece é uma tentativa recorrente de angariar seguidores ou promover produtos por meio de vídeos mal produzidos, pouco pensados e de baixa qualidade artística. Embora não ache que seja necessário que se tenha um equipamento profissional para a produção de vídeos é necessário que se mantenha o mínimo de qualidade no que se faz, e hoje em dia, isso não é nada fora desse mundo. 

Podemos dizer então que a frase de Al Goshman se mantém, mas é cada vez mais difícil encontrar algo de qualidade entre as milhares de produções profissionais que temos circulando pela internet. Me parece que quem realmente se ocupa da mágica como ofício está procurando ir além dessa máxima e vai além de fato, além do que tem no momento e além das redes sociais

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