Um assunto que permeia a literatura crítica da mágica é a roteirização. Mas o curioso é que nestes textos existe uma defesa do roteiro. Isso se dá porque, ainda hoje, há quem defenda – normalmente baseado na própria experiência pessoal – atuar sem um script. Os argumentos costumam ser o fato de que o roteiro tira a espontaneidade da pessoa. Isso parece ser mais uma das anormalidades que permeiam o ilusionismo, pois não existe arte cênica argumentada sem texto.
Uma das inúmeras vantagens de escrever aquilo que se apresentará reside, justamente, em poder atribuir mais naturalidade. Um roteiro permite pensar nas pausas, permite lapidar aquilo que o performer já faz. É nessa direção que Eugene Burger e John Lovick (mágico que atua com um personagem chamado Handsome Jack) argumentam em entrevista com Pete McCabe, no livro Scripting magic.
Para Burger, o principal que um script pode contribuir é a economia de palavras. Quando se improvisa sem ter escrito aquilo que se fala, a tendência é encher de falas desnecessárias, que descrevem ações óbvias. Os típicos vícios de mágicos como “tenho aqui um baralho”; “escolhe uma carta, qualquer uma”. Em resumo, a tendência de descrever aquilo que se mostra e que, por expôr, não precisaria ser dito. O principal, segundo os dois entrevistados, é que um roteiro permite aprimorar, lapidar, aquilo que já se apresenta. A lógica é simples, se um artista só fala aquilo que ele já está mostrando, como isso pode gerar qualquer interesse no público? Como Eugene fala, normalmente o fato de você abrir um spread para a pessoa já é suficiente para que ela pegue uma carta, mas os mágicos em geral tendem a adicionar muletas linguísticas neste momento “escolhe uma carta, pode pegar uma carta, qualquer uma”. Claro que a regra aqui não é geral, há momentos que se deve enfatizar a ação que está sendo demonstrada e momentos que não, roteirizar ajuda, justamente, a entender estes pontos.
Esta aprimoração de um ato/efeito/rotina é essencial quando feita por meio do texto escrito. Na entrevista, ambos debatem também a questão de gravar a performance. Eugene é adepto de gravar o áudio das suas apresentações, quando perguntado sobre vídeo, diz gostar das duas formas, mas o áudio auxilia mais na aprimoração do roteiro. O vídeo, por ser imagem, faz com se veja o feito e não haja concentração nas palavras. Quando o assunto é uma performance argumentada, as palavras são essenciais tornando primordial ouvir a si mesmo. Esta discussão é extremamente pertinente nos dias atuais, pois quase todos temos acesso a um celular que permite gravar tanto áudio, quanto vídeo. Na época da entrevista, os gravadores eram bem menos acessíveis.
Naturalmente que a improvisação é necessária em diversas situações. Como David Parr fala na Penguin Live, o roteiro não é necessariamente algo para se seguir como um escravo. Pode – talvez tenha de – haver volatilidade. Contudo, a roteirização permite um maior controle da situação, uma vez que você sabe o que está para acontecer. Eugene, quando fala de improviso, diz que há dias em que se sente mais inteligente, outros, ele está mais monótono e entediante, para o segundo tipo, ele tem sempre a segurança do roteiro, enquanto para o primeiro, ele pode arriscar improvisações.
Outro fator abordado por eles, é que o roteiro permite aprimoramento constante. Uma vez que se sabe o que foi falado, é possível, a cada performance, retornar ao script e aprimorá-lo. Uma dica que Eugene dá, é escrever um roteiro e dar um espaço de tempo para ele, para depois, com a mente mais limpa retornar e poder ver coisas que inicialmente não se viu. Naturalmente que nem sempre é possível seguir o roteiro, talvez sua performance não caiba em uma situação profissional específica, mas justamente ter o número roteirizado te ajuda a perceber isso, permitindo mudá-lo para a circunstância específica.
Mesmo a improvisação pode ser roteirizada. Um exemplo clássico é o número The Trick that Cannot Be Explained. No livro póstumo Final Secrets, consta como o Eugene Burger fazia este número. Apesar da própria lógica do efeito ser improvisar de um baralho embaralhado pelo espectador, Eugene tinha diversas situações roteirizadas, como uma escala de blues funciona para improvisação em uma guitarra.
Um outro ponto interessante que John e Eugene abordam é a criação de personagens. Os dois são opostos nesse sentido, um é criador do personagem Handsome Jack, já o outro busca um pouco mais ser ele mesmo em cena. Burger expõe que para ele o mágico tem duas escolhas: a do ceramista e a do escultor. A primeira, se ergue a criação. A segunda, a partir de uma pedra, se lapida a criação. Uma está mais relacionada à criação do zero de uma persona que não é você. A outra em tornar interessante aquilo que você é para a cena. Ambas criam algo novo e exclusivo para a apresentação.
Se você, leitor, não roteiriza suas performances, comece agora. Faça um teste e verá a diferença. Conforme dito acima, a defesa da não roteirização é uma anormalidade exclusiva da mágica, não se vê no teatro, nem mesmo na comédia standup. Roteirizar, definitivamente, aprimora o trabalho. Claro que se deve sempre estar pronto para improvisar em situações atípicas, mas não se deve ser escravo da improvisação se você almeja uma performance mais bem construída. Roteirizar permite um trabalho de continuidade no aprimoramento, tornando tudo mais interessante.

