É comum para os mágicos, quando alguém da comunidade falece, ter o rito de quebrar uma varinha, por muito tempo o costume era partir ao meio aquela que pertencia ao ilusionista falecido. Mesmo que este costume algumas vezes não se efetue mais na prática, o símbolo persiste, quando se noticia um obituário, entre ilusionistas, o texto começa sempre com “varinha quebrada”. Quando isto começou? Por que fazemos isso? Este artigo discorrerá sobre estas questões.
No texto Diálogos sobre a vestimenta: uma perspectiva marxista sobre os símbolos da mágica já foi explicada a teoria de Robert Neale sobre o surgimento da varinha, conforme consta no livro Breaking Our Magic Wands. Para o autor, a varinha é um mini cajado, com origem no bobo da côrte, uma vez que fazia parte da sátira da figura do nobre usar roupas que não serviam direito (sapatos grandes, roupas apertadas, um cajado em miniatura).
A ideia da varinha como mini cajado, leva Neale para Próspero, protagonista de A Tempestade, Obra de Shakespeare. O personagem principal da peça promete quebrar o seu cajado e afundar seu livro de magia após se tornar um tirano, renunciando à sua magia. Parte da crítica considera este um aspecto também autobiográfico, o monólogo final representaria o fim de Shakespeare no teatro, pois por muito tempo foi considerada sua última obra. Eu não sou um especialista em literatura inglesa, mas sei que a opinião não é unânime. Fato é que o símbolo do cajado quebrado atua como o fim da magia, do dom (também do escritor), provavelmente o que leva a interpretações do tipo.
De toda forma, esta é a lógica aplicada na teoria por Bob para explicar uma possível origem da varinha quebrada. Sendo ela um mini cajado, o começo deste ritual estaria nesse final, quando em algum momento da história os mágicos passaram a utilizar o mesmo artifício simbólico como rito fúnebre. Assim, a varinha quebrada significa o fim da magia. Robert Neale é ligado à Mystery School, o fato fez ele repensar na estratégia simbólica, o que fez o grupo passar para uma política de herança da varinha. Ou seja, quando um mágico morre, sua magia não acaba, ela é passada para frente. A varinha de Eugene Burger, por exemplo, foi passada para Larry Hass, atual reitor da escola de mágica que fica em Las Vegas.
Quebrar ou não a varinha parece ter alguma relação com o legado. É o fim ou a continuação de uma história? Os textos que começam com “varinha quebrada” parecem também personificar o objeto, uma maneira mais amena de dizer “um mágico está morto” que ao invés disso vira algo como “uma varinha foi quebrada pelas mãos do destino”. A morte não é algo fácil de enfrentar, quando morremos – para parafrasear Emília na obra de Monteiro Lobato – viramos hipótese. É um confronto com o desconhecido, ainda que seja o nada, pois não conhecemos o nada. Quando Eugene Burger escolheu não tratar o câncer, disse que estava na hora dele resolver o último mistério da vida. Isso demonstra uma pessoa que estava muito consciente de seu legado, inclusive sabia para quem iria sua varinha, sabendo também que seu legado seria transmitido por várias gerações. Sua magia vive através de seus livros, seus alunos, o altar que fizeram para ele na Mystery School, da sua varinha que agora está com Larry. Quando morremos, talvez sejamos uma varinha quebrada, talvez não, porque nosso legado continua.
Tal fato nos lembra o recente falecimento de Lorax, mágico brasileiro importante, sobretudo em Pernambuco e no restante da região nordestina do país. Lorax não é apenas uma varinha quebrada, é uma varinha transmitida, herdada por nós e por todos aqueles que tiveram contato com ele. Quando um ilusionista experiente morre, junto com ele vai uma história, coisas que ele viu ao longo da vida, algumas que ficaram desconhecidas e praticamente só ele conhecia, algo como um mini cajado que se quebra. Ao mesmo tempo, algo dele fica com as pessoas que aprenderam com ele, com o conhecimento prático que ele transmitiu, com seus boletins, algo como uma varinha que é passada para alguém. Nós do Adoro Mágica desejamos as mais sinceras condolências aos amigos e familiares de Lorax e esperamos que esta singela homenagem possa trazer uma transmissão, ainda que mínima, de seu legado.

