Decidi terminar o ano com posicionamentos. Em virtude disso, o penúltimo texto foi minha opinião sobre o Adoro Mágica e agora quero revisitar alguns dos conceitos que trabalhei durante este ano de estreia como escritor aqui no blog. Esta coluna serviu como organização de muitos pensamentos meus que já vinham sendo maturados durante meus vários anos de mágica, como amador, como profissional e como ex-profissional. Uma espécie de autorreflexão ao mesmo tempo que sentia a necessidade de pensar sobre alguns parâmetros estruturais do ilusionismo como arte. Sendo a escrita, para mim, a organização do pensamento, eis minha busca: organizar aquilo que eu constituía mentalmente sobre essa arte, às vezes muito cara a mim, outras vezes nem tanto.
Tudo começou com a mágica brasileira. Na época eu estava fortemente influenciado pelo modernismo brasileiro cuja ideia protagonista era encontrar a arte nacional de uma forma não romântica. Ainda defendo a ideia, mas entendi ao mesmo tempo que nossa cultura é múltipla e disforme. Conversando com amigos, muitos citaram Rapha Santacruz como referência de uma identidade nacional devido ao seu personagem autóctone. Depois defendi que Rapha era uma parte de um todo que ainda não estava formado. Acho que essa ideia de parte e todo ainda está mal explicada na coluna. Naturalmente que o caminho regional é uma das possibilidades de uma mágica brasileira, mas não a única. O que defendo na verdade é que encontremos uma forma brasileira de fazer mágica. Acho que o artigo que melhor explicou isso foi o Diálogos sobre o segredo: uma perspectiva marxista sobre a revelação de mágica, a partir das ideias haradianas e de um texto que Alê Primo escreveu para o catálogo do Festival Internacional SESC de Circo. O que o Brasil precisa, ao meu ver, é de uma escola, beber das fontes estrangeiras, mas entendendo estas como do outro, para a partir disto – de forma antropofágica – criar uma própria escola. Fato semelhante já ocorreu com os espanhóis e com os coreanos.
Outra ideia desta coluna consistia em exercitar o pensamento dialético para a mágica. Sendo assim, tentei sempre partir dos tensionamentos, dos contrários, da exploração de um argumento até que se extraia a sua contradição, mas a dialética é anti-logicizante e não dogmática. Duas frentes me motivaram: a literatura brasileira no modo como esta se consolidou de forma autóctone, tal como o pensamento dialético enquanto forma. Assim nasceu a trilogia diálogos: Diálogos sobre o segredo: uma perspectiva marxista sobre a revelação de mágica; Diálogos sobre a originalidade: uma perspectiva marxista sobre a criação na mágica; Diálogos sobre a vestimenta: uma perspectiva marxista sobre os símbolos da mágica. Com esses três artigos pude entender a minha visão não tão elogiosa à mágica, fato que me levou a escrever majoritariamente críticas negativas dos espetáculos que assisti.
Algumas das resenhas foram encomendadas pelo blog, como a de Maicon Clenk – definitivamente a pior grande produção que já vi de mágica. Outras fiz por conta. Destas, a minha favorita é a de Goupil et Kosmao. Muito do meu pensamento sobre mágica reside nas palavras que escrevi sobre o espetáculo de Ètienne Saglio. Para quem lê esta coluna, sabe que dialogo constantemente com a teoria de Ricardo Harada. Escrevendo sobre Magie Nouvelle, pude entender a crítica que o teórico sobre mágica e teatro tinha sobre o movimento. Inicialmente havia gostado do espetáculo, mas quando parei para analisar, pude entender as vicissitudes da mistura, tal como é mal feito em Goupil e Kosmao, uma vez que leva pouco em consideração a tradição teórica da mágica, a síntese conclusiva do espetáculo foi: como mágica é teatro e como teatro é mais ou menos.
Algumas vezes escolhi refletir sobre assuntos já conhecidos na teoria, buscando uma visão ensaística sobre problemáticas já discorridas na mágica. A dialética entre a técnica e a apresentação na mágica é um destes exemplos. A questão entre a realidade interna e a realidade externa da mágica é um problema ainda não resolvido. Parte da riqueza da mágica consiste em não ser percebida – âmbito do invisível, segredo – o que atrapalha o desenvolvimento do ilusionismo como arte. Ora, se faz parte da complexidade algo que não pode ser visto, ocorre que a mágica nunca será entendida em sua completude. Tal fato me leva a explicar a minha motivação crítico-teórica com esta coluna. Justamente tornar público uma educação teórica que pode fazer as pessoas mais críticas começarem a gostar de – tal como reconhecer – uma mágica mais complexa. Naturalmente que a falha disso esbarra no fato de ter um público majoritariamente mágico lendo. De toda forma, como disse no último artigo, trata-se também de jogar o meu pensamento para o mundo e ver o que isso provoca, coisa que não tenho um controle absoluto.
Seja por medo, por respeito, por não entender como fazer, demorei para dialogar com um dos meus teóricos favoritos: Eugene Burger. Quando o fiz, não peguei um dos pontos principais de sua teoria, mas dialoguei com uma frase que ele fala no Magical Voyages volume 1. Assim nasceu Anticristã: A mágica como ferramenta de desconstrução da culpa. O título, muito assertivo na minha opinião, foi de João Biolchi, redator aqui do blog. A ideia principal, não tenho certeza de que ficou clara, é de que a religião fez uma castração, colocando apenas para o divino a ideia de mágica. Em outras palavras: mágica de verdade existe e é esta que os ilusionistas fazem, com as pessoas sabendo que há um truque por trás, qualquer outra não é factual. Não se trata aqui, vale deixar claro, de defender qualquer forma de charlatanismo, mas a prestidigitação é a expressão humana, palpável, que causa – e existe para causar – a sensação de mistério. Foi também a primeira vez que arrisquei fazer uma análise psicanalítica da mágica.
Depois de vinte e dois textos – sendo este o vigésimo terceiro – entendi algumas coisas. A mágica ainda não atingiu o seu ideal, que expliquei diversas vezes nesta coluna. O que equivale a dizer que o seu objetivo principal raramente é atingido, uma sensação pura de assombro cuja explicação não cabe a nada, nem à roupa, ao cenário, à luz, à habilidade do mágico etc. Ou seja, em sua maioria a mágica não se constitui como uma boa arte dentro de seus próprios parâmetros teóricos. Por isso, naturalmente, uma coluna que visa fazer críticas será majoritariamente negativa sobre a arte. Pois em seu todo, ela ainda não se constituiu naquilo que ela própria se propõe. Outro grande fator que motiva a negatividade das críticas é, como expliquei na já citada trilogia diálogos, o fato da mágica estar constantemente aliada à ideologia dominante. Sendo assim, tenho buscado uma análise também sociológica da mágica. Muitas coisas ainda devem melhorar, que venha mais um ano de teoria, crítica, análise e tudo o mais que esta coluna possa oferecer. Feliz ano novo!

