Crítica

O que acontece quando você junta show, comunidade e um endereço perfeito?

Em São Paulo já aconteceram algumas tentativas de espaços voltados para a mágica. Destas, as que foram voltadas para shows, sempre tiveram um problema de localização. Não é o caso do Clube da Mágica Clandestina, iniciativa de João Biolchi (redator do Adoro Mágica) com parcerias de Henri Sardou (idealizador aqui do site) e do Acústico Comedy, que fica próximo da estação Paulista do metrô, um dos pontos mais acessíveis e centrais de São Paulo, sendo acessível da linha verde e amarela, além de ter ponto de ônibus na consolação, sendo também acessível de muitos lugares da capital paulista. O espaço teve sua estreia no último 31, dia do mágico.  Para o show de inauguração, as atrações foram Ortega, Daniel Prado e Lucas Toledo, além de uma gala clandestina – hábito já comum em congressos de mágica cuja proposta é um show com atrações não confirmadas – na qual se apresentaram Guilherme Gomieri, Miguel Turner e Gui Antonio (autor desta coluna do Adoro Mágica), além de um final em que João Biolchi mostrou uma sequências de moedas. Mas esta é uma coluna crítica e, apesar deste que agora escreve ter amado do fundo do coração o espaço, seria falta de honestidade não ressaltar os pontos negativos – todavia sem deixar  os pontos positivos de lado.

Em primeiro lugar a estética é certeira: ao entrar na sala do clube, que fica no mesmo edifício do Acústico Commedy, dividindo o bar da casa, você vê do lado direito cartazes enquadrados de espetáculos da história da mágica. Já do lado esquerdo, fotos de mágicos brasileiros como Ricardo Malerbi, Ortega, Tatá Trivério, Camila Rivetti, Gui Antonio, Fujikan, Daniel Prado, entre outros. O espaço é reto, sem a presença de um palco, mas com uma coxia funcional e camarim. A cortina atrás do espaço cênico é preta, o que possibilitará o uso de artifícios técnicos que dependam disso. A luz é simples, mas efetiva. O sistema de som é bom, apesar de ter havido falhas técnicas com o microfone, coisa que se resolverá com um equipamento melhor e instrução técnica. 

A performance da inauguração abriu com Ortega fazendo sua rotina de argolas, uma junção de técnica com elegância, além de um recurso pouco usado em atos de aros que permite, por exemplo, um momento no qual as três argolas vão para a mão de um espectador da plateia. A performance que Ortega faz com esse clássico é, sem dúvidas, uma das melhores do mundo, portanto dispensa qualquer comentário. É bela, delicada, potente e cheia de pensamento mágico por trás, o que cria uma das maiores joias da mágica brasileira.

Nem tudo são flores, na sequência entrou Daniel Prado, artista conhecido por seu virtuosismo técnico com baralho. Não há dúvidas de que Prado é um dos melhores cartomagos do Brasil, com uma projeção internacional, material de criação própria e um handling – termo usado por mágicos para especificar a naturalidade em que se manuseia objetos – apuradíssimo, porém deixou a desejar na performance. Em primeiro lugar, o microfone falhou, mas isso não gerou nenhum esforço aparente do artista para falar mais alto. Ele chegou a perguntar se escutavam ele bem, ganhando uma resposta negativa muito clara de um dos espectadores do fundo (“não”), mas isso não mudou em nada o tom de voz de Prado. O autor deste texto estava na quarta fileira, sendo que cada uma das fileiras tinham cinco cadeiras, tratando-se de um espaço intimista, neste sentido deu para ouvir tudo que o artista falava desta distância, o que não é verdade para os espectadores mais ao fundo. Porém, se a questão do volume dá para culpar o problema técnico da casa, a monotonia não tem desculpa. Prado apresentou tudo de forma uníssona, com pouquíssima variação vocal, gerando um argumento muito morno. As temáticas são interessantes, mas o artista parecia pouco interessado – usa-se aqui, propositalmente, uma paráfrase de uma das regras de Avner que diz “não seja interessante, seja interessado”. Mas o maior de todos os erros de Daniel Prado foi a falta de verticalização. Como o espaço é reto e, devido a estreia do clube ter muitos convidados, a casa estar com pessoas acima da capacidade, mal deu para ver o que o artista fazia para a maioria das pessoas (talvez com exceção das duas primeiras fileiras). Não dá para culpar a casa, pois há uma enorme fortuna crítica na mágica sobre métodos para driblar isso, sendo a principal delas a verticalização. O ato de Daniel é horizontal, o que atrapalha completamente a visibilidade do que ele apresenta. Além disso, parece que o artista não está pronto para adaptar, falta presença. No artigo Anticristã: A Mágica como Ferramenta para Desconstrução da Culpa, é citada uma frase na qual Eugene Burger diz “Uma das coisas maravilhosas sobre mágica é que ela te ensina a viver sem culpa”; Prado parece ter a culpa da imperfeição, se algo sai do planejado, não é passível de adaptação, pois tudo que ele faz é perfeito. Porém nada é perfeito para todas as situações e, portanto, é necessário estar vivo, estar presente, sentir o ambiente e o que se deve fazer em determinados acontecimentos, é impossível controlar tudo.

Na sequência, Lucas Toledo entra com um número potente de mentalismo, seguindo para um ato com cubos mágicos. A performance foi bem feita, embora não apresente nenhuma novidade autoral, é só mágica de outros sendo realizada (ainda que bem). Há uma falha estrutural no que tange a ordem dos efeitos do ato com cubos. O último efeito (uma previsão de um número escolhido por meio da disposição dos quadrados de alguns cubos mágicos) é muito mais fraco que o anterior (uma espectadora monta o cubo com as mãos nas costas ao mesmo tempo que outro cubo no qual outro espectador segurava e Lucas não encostou, magicamente se monta). Naturalmente que o espectador fazendo algo que ele não sabe fazer nas costas e um cubo mágico se montando a distância é mais potente que a previsão, gerando anticlímax. Apesar disso, a falha não foi tão grande, uma vez que o efeito da previsão, embora menos forte que o anterior, é também bastante potente. Lucas também entrou com um microfone não funcionando, porém isso não atrapalhou o artista que falou em alto e bom som para toda a casa ouvir. A performance de Toledo foi como aquele prato feito paulistano (ainda que ele seja do Rio de Janeiro) de trinta reais que, embora nenhuma novidade gastronômica seja apresentada, o tempero ganha o público.

Para fechar com chave de ouro a gala principal, Ortega finalizou com seu ato todo rimado ao estilo cordel. Apresentou um número no qual você nunca sabe onde está uma carta vermelha entre duas outras pretas, terminando com um clímax onde todas as três cartas se transformam na vermelha em questão. O número, que já é lapidado há anos, é encantador, além de fazer referência a um estilo de poesia que – apesar de ter vindo de Portugal – se consolidou em sua maior potência poética no Brasil, o que faz com que o ato ganhe traços autóctones. Após a gala clandestina, o idealizador do clube, João Biolchi, terminou em tom de piada apontando para os cartazes de shows clássicos dizendo que importam pouco por serem gringos e o que era importante mesmo eram as fotos dos mágicos brasileiros. 

Houve um brinde com espumante para todos os convidados. O clube estreou ideologicamente muito bem, visando um espaço para shows, conferências, cursos e muito mais para a mágica brasileira. São Paulo ganhou, finalmente, um espaço bem localizado e acessível. Sem dúvidas o clube será fundamental para o crescimento do ilusionismo, estando aberto para todos que tiverem interesse em testar atos, espetáculos, dar cursos e tudo que tiver direito. Basta chamar João Biolchi por meio do instagram @showdojoão. Além do perfil do organizador, o da casa já está no ar em @clubedamagicaclandestina.

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *