Artigo

O que a Igreja de Siena me ensinou sobre Água e Azeite na cartomagia

Água e azeite é um dos números mais clássicos da cartomagia. Normalmente é uma sequência na qual o mágico intercala algumas cartas pretas e vermelhas e depois elas aparecem sempre separadas (normalmente quatro cartas de cada cor, totalizando oito, mas existem inúmeras versões). O número fez um enorme sucesso na mão de René Lavand, mágico argentino super reconhecido por sua poética e pelo fato de só ter uma mão. O argumento clássico do número: água e azeite não se misturam. É comum em livros que o ensinam indicar a ideia de ter um vidro com água e azeite, chacoalhar e esperá-los se separarem, depois mostrando que o mesmo aconteceu com as cartas visivelmente misturadas, mas então separadas em pretas e vermelho, tal qual ocorre no vidro em virtude das diferentes polaridades dos líquidos em questão.

Esses dias entrei em uma igreja em Siena, na Itália, cuja construção iniciou-se no século XIV e foi terminada no século XVII. Entre as diversas pinturas no estilo renascentista, olho para o altar e eis que vejo dois vidros; um com água, outro com azeite. Eu sempre tento entender o estatuto simbólico que os números clássicos são capazes de arraigar: aros, relacionamento humano; algo cortado, quebrado ou rasgado e depois restaurado (se faz com corda, com carta, com papel, com varinha), morte e ressurreição. Mas nunca tinha parado para pensar, apesar de criação católica (embora hoje me considere um cético), no estatuto da água e azeite como símbolos religiosos. O que estaria então por trás de um dos maiores clássicos da cartomagia – mágica com baralho?.

Apesar da química moderna, números com líquidos normalmente fazem referência simbólica à alquimia. Tal qual aqui, um vidro (pote de poção mágica) demonstrando uma espécie de aventura (al)química. Porém o efeito em si não é feito com os líquidos, mas sim uma representação com as cartas. Normalmente o tal vidro representa a fase do passe mágico, tal qual um estalar de dedos, as cartas imitam o que sucede com os líquidos de diferentes densidades. Espécie de poção mágica que não se toma, a separação externaliza o efeito para algo mais sólido, ou seja, cartas de baralho.

Porém o uso de um símbolo mágico-simbólico não deve ser a toa. Sendo assim, água e azeite ainda representam, respectivamente, o humano e o divino, ao menos na perspectiva cristã. Os símbolos na mágica possivelmente façam alusão a duas coisas com a qual a mágica sempre jogou: a ciência e o divino. Se a água é a representação do humano (origem da vida, o corpo é 70% água etc), talvez aqui ganhem o estatuto da representação da técnica, ou seja, ciência. As demonstrações de pseudo-ciência sempre fizeram parte do ilusionismo, como também o próprio uso de novidades científicas ainda não amplamente conhecidas para simular uma tecnologia ainda não existente em diversos tempos (os autômatos por exemplo, que muitas vezes simulavam a ideia de robôs inteligentes, antecedendo ou sendo simultâneo à própria ficção científica literária). Nessa lógica, o azeite enquanto representação do divino seria próprio o estatuto do mistério, essencial para a existência de qualquer número de mágica. 

O estatuto aqui é, também, auto representativo. A dialética entre técnica e performance (já discorrido nesta coluna no artigo A dialética entre a técnica e a apresentação na mágica) é algo que permeia as apresentações de mágica, sendo a técnica a parte humana, aquilo que se treina e se adquire. A performance, como ritualística, teria o estatuto do divino, do misterioso, o mistério próprio da criatividade humana, já discorrido no artigo anterior a esse, intitulado A arte que devolve o assombro: pra que serve a mágica num mundo desencantado?

Agora, é curioso que no número eles se separem, demonstrando talvez a impossibilidade de uma integração total dos elementos. A mensagem que remete, possivelmente, é que técnica e performance caminham lado a lado, sendo indissociáveis em um frasco de vidro, mas nunca se misturam totalmente. A própria ideia de que aquilo que o efeito esconde (realidade interna, plano do invisível do que acontece em um número de mágica), embora esteja no mesmo frasco, nunca se revela totalmente na apresentação.

Naturalmente que isso é uma reflexão interpretativa dos símbolos. Diversas outras religiões utilizam a água e o azeite (ou óleo) como símbolo. A própria ideia de passar óleo nos nobres e mais divinos tem também um estatuto social de separação que ocorre aqui, a tentativa de misturar duas coisas que sempre se dissociam (luta de classes, talvez?). A questão é mesmo a da significação que um número clássico pode ter. Além disso, entender tal questão ajuda a combater o fato dos props terem perdido o seu estatuto de significação, tópico já discutido no artigo anterior a este, já mencionado acima neste texto, conforme fala Eugene Burger no livro Magic and Meaning. Tentar buscar a origem simbólica – que pode ter sido criada de forma inconsciente, mas continua tendo estatuto mágico-simbólico – é uma forma de gerar consciência para entregar uma performance ritualística com atmosfera de mistério no show. Tudo isso sem precisar recorrer ao charlatanismo, porque os símbolos falam por si e na mão de um ilusionista consciente, pode ter ainda mais poder. Ou, como já mencionado no artigo anterior, romper com o símbolo de forma consciente para uma desconstrução mais rica, afinal arte não tem receita.

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