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Entre improvisos e aplausos, noite com Felipe Barbieri e Amigos agrada, mas merece atenção

Antes de qualquer coisa, agradeço o convite para assistir e resenhar Felipe Barbieri e Amigos Mágicos, apresentado no último fim de semana no Clube da Mágica Clandestina, em São Paulo. Fico lisonjeado, de verdade. E faço aqui o necessário aviso aos navegantes: não sou crítico profissional de espetáculos. Aliás, suspeito que, no Brasil, essa categoria aplicada especificamente à mágica caiba com folga numa mesa de bar de quatro lugares e ainda sobre uma cadeira. O que segue, portanto, não é sentença, nem manual, nem verdade absoluta. É apenas uma opinião sincera, construtiva e, espero, útil, de quem viu o show com atenção suficiente para aplaudir quando merecido e franzir a testa quando inevitável.

Começo pelo que merece elogio sem rodeios: a existência do Clube da Mágica Clandestina já é, por si só, uma notícia boa demais para ser tratada como detalhe. São Paulo tem público, tem artistas e tem tamanho para sustentar um espaço fixo dedicado à mágica. Portanto, parabéns a João Biolchi, Henri Sardou e a quem mais esteja envolvido nessa empreitada. O espaço, no geral, me pareceu bem cuidado: cadeiras numeradas, rotunda, cortinas, iluminação, decoração com quadros de mágicos contemporâneos e antigos, em um ambiente que tenta dizer ao público “isto aqui é um espetáculo. Mesmo sem ter visto a estrutura técnica por trás, só o fato de haver passagem e saída alternativa já mostra um mínimo de inteligência cênica, o que, convenhamos, nem sempre é tão comum quanto deveria.

Porém, nem tudo ali opera sob o signo do refinamento. Faria bem ao Clube ter mais identidade visual do lado de fora. Um espaço que quer se consolidar precisa também se anunciar como tal, inclusive para fisgar quem foi ao Acústico Comedy e talvez nem suspeite que existe uma casa de mágica ali em cima, pedindo para ser descoberta. Também seria desejável que o básico da hospitalidade fosse cumprido. Banheiro sem água e sem papel para limpar as mãos não é exatamente o que desejamos ver. O atendimento no bar também pareceu preso entre a lentidão e a desorientação. Na saída, pratos, panelas, alimentos e sujeira sobre o balcão, compuseram um final visual que não combina com um  espaço cultural em ascensão. Nada disso desabona o projeto, mas tudo isso comunica. O espaço cultural também fala, antes mesmo de ter alguém no palco.

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Sobre Felipe Barbieri, segundo melhor da noite, é fácil entender a proposta. Há nele uma pegada de celebridade, uma construção visual e conceitual que combina com seu perfil e dialoga com o público que o acompanha. Isso não é defeito; é identidade. O problema começa quando o carisma entra em cena e o roteiro resolve desaparecer. O que se viu foi um artista com presença reconhecível, bons momentos de impacto e uma condução muitas vezes excessivamente improvisada, como se a espontaneidade estivesse sendo usada não como recurso, mas como muleta. E convém dizer: espontaneidade funciona melhor quando apoiada por estrutura. Os melhores artistas que já vi parecem leves justamente porque trabalharam como condenados para parecer leves. Em Barbieri, senti falta de texto, de costura, de intenção mais clara entre uma coisa e outra. Há material ali, há apelo ali, há aprovação do público ali. Falta lapidar para que a entrega esteja à altura da expectativa que seu nome provoca.

Também me pareceu evidente que ele ganharia muito se aprofundasse o entendimento de linguagem corporal e ocupação de palco em ambiente teatral. Vídeo e palco são parentes, mas não irmãos gêmeos. Houve momentos em que Barbieri se posicionou mal em cena, falou virado para o lado, permaneceu estático e explorou pouco aquilo que Tamariz tão bem compreendeu: os fios visuais e corporais que conectam artista e plateia. Há muito a se fazer com direção de cena e trabalho de corpo. Isso não é preciosismo de professor de teatro querendo justificar o salário; isso melhora compreensão, ritmo e impacto. Como a apresentação foi gravada, ele terá a sorte rara de poder assistir a si mesmo e constatar isso com alguma crueldade útil.

Nos efeitos, houve simplicidade em boa parte do repertório, mas também acertos. O prego no nariz, número pelo qual confesso pouco carinho, funcionou bem justamente pela demora na retirada. O impacto cresceu com o tempo, e o público respondeu. Se ele quiser ainda mais efeito e uma camada de irreverência (e higiene), bastaria tirar um ziplock do bolso e entregar o prego dentro, transformando o “é real” em gag e prova ao mesmo tempo. O número de cartas ESP teve boa condução, especialmente no gerenciamento de várias pessoas participando. Ali houve clareza de passos e, por consequência, bom impacto. Talvez com um pouco mais de dinâmica interna — não correria, mas pulsação — o punch final ficasse ainda mais forte. Já em Sabedoria da Multidão, que é um efeito potente, o pano de fundo ligado às pontas de cigarro de maconha me pareceu menos eficaz do que a estrutura do número merecia. Entendo que tenha a ver com o estilo dele, mas esse tipo de escolha exige cuidado redobrado com quem sobe ao palco. Há uma diferença grande entre irreverência e imprudência, especialmente se a seleção do participante flerta com o risco de chamar alguém jovem demais para um contexto inadequado. Em tempos de câmera por todo lado, convém não dar mole para o azar.

A lousa da soma passou, mas com um alerta importante: ao reutilizar a lousa, havia números no verso diferentes daqueles escritos pelas pessoas. Quem escreveu sabe. E quem sabe, suspeita. Na roleta russa, número que pessoalmente não me seduz, o público comprou sem dificuldade. Funciona, e isso importa mais do que o meu gosto. Mas o sistema, embora seguro, parece pedir melhor manipulação do pacote final para não empurrar o espectador em direção ao segredo. Já o quadrado mágico segue sendo um clássico fortíssimo e foi bem executado. Eu só trocaria a forma de preenchimento: se os números estão memorizados, melhor distribuí-los de maneira aparentemente aleatória no quadrado, em vez de seguir ordem por linha. Aleatoriedade aparente é oxigênio para esse efeito.

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Matheus Laurini entrou sob o peso de uma expectativa talvez inflada demais pela apresentação de Felipe. E existe uma regra antiga, simples e quase sempre ignorada: artista bom não precisa anunciar que é bom antes de provar. Vai lá e faz. Quando se fala demais de si, antes de a mágica chegar, o risco é produzir uma atmosfera de soberba que nem sempre a performance imediatamente compensa. Laurini tem bons efeitos, sem dúvida. A calculadora, deixada para o final, funciona muito bem em palco e tem cara de milagre. É forte, limpa a memória do público e fecha em alta. Mas entre ter bons efeitos e construir um bom ato existe um oceano. Faltou texto, coerência, narrativa, preparação mais rigorosa de começo, meio e fim. Em muitos momentos, a fala soou como aquela tradicional “fala de mágico” usada para preencher espaço entre procedimentos, um gênero teatral tristemente resistente, quase sempre marcado por palavras ditas apenas para que o silêncio não denuncie a falta de pensamento.

Houve ainda um detalhe concreto que prejudicou bastante a percepção: em uma rotina com baralho vermelho, em seguida surgiu outro efeito puxando um baralho azul do bolso. Pode parecer pequeno para quem está apresentando, mas não é pequeno para quem está assistindo. Tanto não é que o sujeito ao meu lado comentou, com a sinceridade brutal que só o público oferece: “ué, por que outro baralho?”. Exatamente. Em mágica, troca visível sem motivação é convite à suspeita. Descartar melhor o baralho anterior, respirar a transição ou até manter a mesma cor já reduziria o ruído. Também me chamou atenção um subtexto um tanto indigesto na persona apresentada, como se pairasse no ar algo na linha de “sou um grande artista de grandes ilusões e agora estou aqui tentando fazer umas coisinhas de cartomagia”. Se essa narrativa existe, vale abandoná-la com urgência. Não só porque diminui o próprio repertório apresentado, mas porque rebaixa, ainda que indiretamente, linguagens que exigem tanto rigor quanto qualquer caixa serrada ao meio. Se a performance fala por si, não é preciso criar hierarquia entre as artes para legitimar a própria presença.

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Lucas Toledo, por sua vez, foi para mim o melhor da noite. E aqui não há muito malabarismo verbal que mude isso. Já o conhecia em cena, já tinha boa impressão, e o sábado apenas confirmou o que acontece quando um artista entende que mágica não se sustenta só no método, mas na arquitetura da experiência. É muito nítido como preparo artístico, compromisso com roteiro e ferramentas teatrais ampliam a conexão, o engajamento e o convencimento do público. Mesmo nos momentos em que parecia improvisar, havia ali uma base sólida segurando tudo. No cubo mágico, a rotina fluiu muito bem, com boa condução e clareza. Talvez uma revisão de uma frase sobre o embaralhamento feito pela pessoa nas costas seja prudente, porque me ficou a sensação de que a formulação pode ter chegado perto demais de uma impressão metodológica desnecessária. Em Escolhas, houve um pequeno sequestro de lógica por parte de um espectador particularmente criativo, que decidiu levantar “quando fez sentido para ele”. Ainda assim, o número terminou forte, especialmente no final com a lousa. O único pecado ali foi cortar cedo demais a reação da plateia. Quando o público devolve em aplauso, o artista inteligente recebe. Não se atropela aplauso; desfruta-se dele. No conjunto, Lucas foi o mais consistente em preparo, fluidez cênica, controle de público e resultado.

Em todos os atos senti falta de uma trilha sonora que pudesse ajudar a criar clima, com tensão e quebra de expectativa, mas principalmente nas participações do Barbieri. Vinheta para chamar o espectador também fez falta, além de microfones. Mesmo sendo intimista o espaço, quem fica nos últimos assentos não consegue entender com clareza se o artista não projetar a voz.

No quadro geral, uma impressão me acompanhou do começo ao fim: há potencial de sobra, mas há também certa desorganização. Egos, objetos e comentários de bastidor não precisam subir ao palco. Frases como “os outros mágicos colocaram coisas aqui e me atrapalharam” não têm graça, não criam cumplicidade e só expõem bagunça. Artistas precisam ser cooperativos em cena e fora dela; o público não pagou para assistir à gestão de atritos. Também vale pensar melhor na escolha de voluntários, especialmente quando alguém já esteve na sessão anterior. O público sempre tende à explicação mais provável, e a mais provável costuma ser “isso foi combinado”. Se dá para evitar esse ruído, evite-se. Em compensação, achei que me incomodaria mais o fato de o público poder fazer pedidos durante o espetáculo, e isso não se confirmou. A casa conduziu essa parte com cuidado, observei a reação da sala e não percebi incômodo relevante, exceto, claro, por um cidadão que derrubou coisas no chão no final, felizmente resgatado com rapidez.

No fim, o saldo da noite foi promissor. A mágica, por sua própria natureza, encanta com relativa facilidade; às vezes justamente por isso alguns artistas se acomodam e acreditam que o efeito basta. Não basta. Ou melhor: às vezes basta para arrancar aplauso, mas não basta para construir um espetáculo memorável. Organização do ato, limpeza de entradas e saídas, texto, trilha, vinheta e ambientação sonora, nada disso é acessório. Tudo isso contribui para o público sentir que está diante de algo pensado, afiado e digno do seu tempo. Uma simples abertura sonora do Clube da Mágica Clandestina, com trilha e locução apresentando a noite, já elevaria a percepção geral do evento sem exigir orçamento da Broadway.

O que vi no sábado foi um projeto valioso, um espaço com vocação real e dois artistas capazes de entregar mais do que entregaram. Isso, ao contrário do que pode parecer, não é uma condenação; é um elogio exigente. Pior seria sair de lá sem nada a esperar. Saí esperando bastante. E isso, para a mágica brasileira, já não é pouco.

G. Massimo

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