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A arte que devolve o assombro: pra que serve a mágica num mundo desencantado?

Leitor, você já parou para pensar por que você faz mágica? Não em um sentido puramente individual cujas respostas podem girar em torno de “quando eu era criança vi um mágico, fiquei encantado e quis fazer mágica”, mas em um sentido coletivo. Comecei, provavelmente, com a pergunta errada. Leitor, você já parou para pensar no porquê fazer mágica? Essa sim é a questão central que norteia este artigo. Simplesmente pelo motivo de que essa pergunta acarreta outra: Qual o sentido da mágica enquanto arte? Não é que se pretenda responder a pergunta, muitas vezes fazê-las é o melhor caminho. Porém, podemos tentar entender determinadas nuances que explicam, possivelmente, a importância central do ilusionismo enquanto arte. Eis a tentativa, filosófica talvez, já que não acarreta em nada na prática. Ou, na verdade, acarreta, porque o conhecimento conceitual daquilo que se pratica é essencial para gerar uma consciência daquilo que se faz. Sem mais delongas, este artigo é sobre mistério.

Dos primórdios da mágica até um número simples com baralho, a ideia de mágica está ligada a criar uma atmosfera de mistério. O que equivale a dizer que o assombro é, ou deveria ser, uma espécie de interrogação. Estar diante de um feito (ou efeito) aparentemente impossível cuja explicação não recai em absolutamente nada, é a busca ideal e constante do ilusionista. Trata-se, portanto, de um momento no qual o espectador recai em um estado pré-lógico em que o encanto se faz. O mistério retorna. Volto mais tarde na ideia de retorno, antes, as palavras daquele que dedicou sua vida a pensar a mágica filosoficamente para criar na prática aquilo que, de fato, deveria ser a busca constante do ilusionismo enquanto arte.

“Mágica, (…), não é sobre os props. Mágica é sobre a vida. Para que a mágica nasça na mente dos espectadores, eu preciso desenvolver neles um sentido de mistério. Eu posso fazer isso verbalmente ou eu posso fazer isso visualmente. Em uma experiência mágica, os props, como símbolos, apontam para além de si mesmos para o mistério maior. Como homens e mulheres modernos, nosso sentido de mistério foi, na melhor das hipóteses, ferido, e na pior das hipóteses, perdido completamente. (…). Como o mistério foi perdido, a mágica foi degenerada: os props perderam seu valor e poder simbólicos e, portanto, se tornaram um fim em si mesmos.”

As palavras acima são uma tradução, feita por este que escreve, de uma fala de Eugene Burger, presente no capítulo Conversations de Magic and Meaning. Muitas camadas interpretativas nessa constatação que ele faz podem ser elaboradas. Mas o foco aqui será a perda do mistério, porque, ao que parece, é nesse ponto que reside a importância fundamental de fazer mágica. 

Vivemos em um mundo desencantado ou, na melhor das hipóteses, em desencantamento. Um prompt de comando faz uma máquina criar aquilo que um dia era uma função puramente humana. Se o faz bem ou não, é outro assunto, mas faz. A questão aqui não é uma crítica ao uso de inteligência artificial, mas sim mostrar que a vida diminui. Ou, ao menos, a vida humana diminui, a humanidade cai. Com isso, o senso de mistério também. Em outros tempos eu poderia estar falando da televisão. Em outros, ainda, da rádio. São elementos capazes de diminuir as interações humanas e, com isso, mais uma camada de mistério se dissolve. O mundo se desencanta. A criação deixa de ser uma necessidade. Ora, se não há mais a necessidade de usar o mecanismo de criatividade humana, que é uma função da psique absolutamente misteriosa, poderia dizer, ainda que em um sentido completamente cético, uma função divina herdada pelo ser humano, como não dizer que o desenvolvimento massivo da tecnologia resulta no desencantamento do mundo e na dissolução do mistério?

Eis aí o motivo do uso do verbo retornar, mencionado acima. O assombro – efeito de estar diante de um feito inexplicado – atua como uma plataforma de retorno ao mistério. Se o mundo desencantou ou está em desencantamento, eis a importância coletiva, diria até mesmo social da mágica: encantar, ao oferecer um recurso para o retorno ao mistério. Retorno, pois é uma volta àquilo que um dia a humanidade já teve. Ao mesmo tempo, ao fazer isso de uma maneira substancialmente cética, o ilusionismo atua de modo concreto com a atmosfera de mistério, gerando-o de uma maneira livre da enganação político-religiosa. Veja bem, não se trata aqui de criticar nenhuma fé, o próprio texto atua em uma crítica ao desencanto do mundo, mas se trata ao mesmo tempo de criticar a institucionalização da fé que a maior parte das religiões, sobretudo as cristãs, causam. Este que escreve é um cético ao mesmo tempo que vê na mágica uma plataforma possível para a realização de um sentimento necessário para a humanidade, antes realizado por meio de acreditar em divindades superiores. Todavia a mágica é capaz disso sem que haja a necessidade de um ser superior. É a criação humana do divino, sem charlatanismo, que pode gerar um sentimento necessário. Ser mágico, nesse sentido, é como ser um militante do imaginário. 

Entretanto, não é toda performance de mágica que é capaz disso. Daí que o Eugene Burger fala dos props terem perdido o seu valor e poder simbólicos. O que equivale a dizer que a maioria das apresentações de ilusionismo não atingem esse fim. A questão é que saber do objetivo pode ajudar a alcançá-lo. Não só isso, como também demonstra a enorme responsabilidade que fazer números de mágica pode arraigar. Mágicos são artistas que têm em suas mãos o poder – e também a responsabilidade – de causar um retorno ao mistério em um mundo desencantado. Isso exige, portanto, uma preparação mais sólida da performance, um conhecimento dos símbolos que a mágica pode trazer e, acima de tudo, um manejo da apresentação que gere um relacionamento ritualístico com o público. Estar em cena como um militante do imaginário é aceitar que o mistério é o fim último, que o assombro é em prol de algo muito maior. E isso diz respeito, também, à importância de uma abordagem filosófica com a mágica. Um número de carta, moeda, argolas, ou qualquer outro objeto, guarda em si uma questão simbólica humana que precisa ser descoberta e explorada por aquele que atua. E quando não explorada, já que não se impõe receitas para a arte, deve ao menos ser transgredida conscientemente. No mistério, no assombro e no imaginário a mágica carrega consigo toda sua importância fundamental para a sociedade que se desencantou perdendo sua relação com o misterioso, pois mágica é magia.

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